sábado, 12 de março de 2011

Do ridículo

Não, não me inscrevi na oficina da Débora... não teria dinheiro pra pagá-la e ainda bancar a mensalidade do SESC. De qualquer forma, não seria legal deixar de ir à minha primeira aula de teatro, que foi hoje. Terei aula aos sábados, das 13h às 18h. o.O
Desde que acordei estava ansiosa para essa aula. Na verdade, desde ontem, mas por motivos mais pessoais e nada felizes... Bom, escolhi começar o teatro, e isso significa bancar outras decisões que vêm no pacote. Terei menos tempo no fim de semana, e isso implica em reorganizar meu tempo com as pessoas: mãe, pai, namorado, amigos... Além de ter que ser mezzo dona-de-casa também, já que divido as funções por aqui com a minha mãe e o sábado é o dia mundial dos afazeres domésticos pra quem trabalha fora, né? Enfim, coisas.
Escolhendo a roupa para a aula: confortável, nada de jeans... e só me sobrou uma dessas calças horrorosas que tá saindo de moda, a tal saruel. Tenho uma preta que já usava pra dormir, de tanto não ter coragem nem de ir à esquina com ela. Usei, né? Fazer o quê. Ela, uma regata preta e o all star branco. Legal foi descobrir que acertei na mosca! O uniforme lá é a camiseta preta do curso (com as máscaras bacanas do teatro) e uma legging ou calça preta. O uniforme é necessário, segundo o professor, para que um aluno não chame mais a atenção visual do professor/monitor que os outros, o que dificultaria nas correções de postura e atuação. Parece que em todos os momentos o foco das nossas atenções deve estar no corpo e nas suas movimentações, e tudo o que nos desvie desse foco deve ser evitado.
Mas eu já dei um salto enorme no tempo. Na verdade eu ainda estou saindo de casa, com a roupa adequada lá. Daí veio o ônibus, daí veio a chuva, daí veio o desânimo de imaginar minhas tardes inteiras de sábado em uma sala de aula/ auditório, daí veio a certeza de que a minha bunda estava enorme naquela calça, daí veio o SESC.
Esperando um pouquinho o início da aula, fui conversando com alguns dos outros alunos. Uma parte deles já está no segundo semestre (módulo), e uns poucos já estão no terceiro, que corresponde à montagem de uma peça teatral. São pessoas legais, animadas, a maioria de jovens entre 20 e 30 anos. Há alguns senhores e senhoras também. Como foi a primeira aula, ficamos todos juntos, mas não será sempre assim. Minha turma, os iniciantes, tem matérias diferentes das desses outros.
Sim, matérias! Você ouviu bem! Assim que entramos em uma sala de aula parecidíssima com as da Fafich, o coordenador do curso, chamado Diocélio (eu já o vi em várias campanhas da TV Alterosa!), nos explicou que teríamos matérias como História do Teatro, Literatura Dramática (\o/), Mímica Clássica, Improvisação I e II e Interpretação I e II, e outras que esqueci. Ou seja... eu realmente ficarei com o bumbum sentado numa carteira ao menos uma parte das minhas tardes de sábado. E eu espero que ao menos ele esteja menor do que estava com aquela calça saruel ridícula.
RIDÍCULO. Foi a palavra que o Diocélio escreveu enorme lá no quadro-negro. Quem quer ser ator/atriz não pode ter medo do ridículo, isso é fato. Mas o que ele queria que pensássemos era nas raízes desse medo que todos temos de "ser ridículo". Medo que tem muito a ver com a educação, com certas amarras sociais (necessárias, pois regulam nossa vida em sociedade, mas ainda assim são amarras) que nos impedem de falar impropérios, abraçar desconhecidos, sair só de cueca na Afonso Pena (quando não é carnaval) y otras cositas más. Pois é.
O trabalho do ator/atriz parece consistir exatamente em explicitar essas amarras pela negação delas, no palco. O estranhamento do seu "ridículo" cômico ou da sua dor dramática servem para colocar o espectador (e antes de tudo, o ator/atriz) em contato desvelado e direto com as emoções e contradições humanas. E a Elisa nessa hora fez uma cara de "Aaaaaah... caramb* nossa! Quero tentar fazer isso. Tô cheia de amarras sociais aqui, ó."
Descemos para o auditório, tiramos os sapatos e dá-lhe exercícios! Alongamento. Desinibição. Memória. Coordenação. Expressão corporal. Criatividade. Aquecimento e Expressão Vocal. Tudo isso observado e comentado pelo professor em várias atividades diferentes, fosse cantando uma musiquinha de aquecimento vocal doida demais ou correndo pelo auditório aleatoriamente. Olho no olho do coleguinha, emoções com o olhar. Observar o próprio corpo, o próprio corpo, o próprio corpo. O tempo todo. Só nessa hora entendi porque vamos estudar mímica antes de ver interpretação em si. Se expressar pela fala é fácil, né? Fazemos isso o tempo todo. Difícil mesmo é educar o corpo pra dizer o que a gente tem a dizer. Escutem bem, a Elisa vai penar. Ela teve vergonha até pra se apresentar pro povo! E olha que em geral eu não tenho não... acho que foi porque eu já tava com uma intuição de que aquilo não seria uma apresentação qualquer de mim mesma. É bem provável que eu ME apresente a mim mesma com o decorrer das aulas... mas por enquanto isso é só uma promessa.
No fim da aula, grupos de quatro alunos apresentando um sketch. Cena curtinha, tivemos que improvisar mal e porcamente, pois esquecemos o enredo.... eita memorização. Será que ainda vendem em bancas aqueles kits que ensinam a memorizar coisas? Tomara. Encerramos com umas imposições de mão do reiki, lembrei da minha mãe! O Diocélio parece ser um tipo meio místico, fala em energia e campos energéticos o tempo todo. E... né? Lembrava da minha mãe na hora.
Ah! Me lembrei de um momento: tem um aluno lá que faz mestrado em psicologia. Ele disse em sua apresentação que o teatro o ajudaria na dissertação (olha eu me sentindo uma cobaia de testes psico-patológicos...). O comentário do Diocélio, qual foi? "Ah, meu filho, Freud grita aqui!". Ótimo. Nem preciso dizer que a sorte riu da minha cara e me colocou como dupla desse psicólogo no exercício de expressar emoções pelo olhar. O Diocélio mandava: "Gente, olhem nos olhos um do outro e busquem enxergar a alma que está lá dentro!". Eu não vi nada da alma dele, só ficava pensando em quanto de energia ki [/dragonball] eu precisava juntar pra dar uma blindada nos meus freudianismos interiores.
Cheguei em casa às 18:30, suada, cansada e com uns pés pretos que tavam um nojo! Mas não tem jeito, aula só descalço. Banho, camisola... tô feliz! Tão feliz como todas as pessoas na face da Terra que começam uma coisa nova.

2 comentários:

  1. Mas ô dona coisa! Por que vc não volta? Podia recitar Leminski lá pra gente! hahahahaha
    E eu vou postar sempre... pelo menos a ideia é essa! hehe

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  2. Elisa, posta sempre sobre suas aulas?
    Fiz 4 anos de teatro e larguei quando comecei letras. Aí fico arrepiada lendo isso e lembrando das minhas primeiras aulas e morrendo de saudade e querendo de novo não ter medo de ridículo e, e, e...
    Aguardo!

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