sábado, 26 de março de 2011

Da dor verossímil

Quase que não conto nada hoje, viu... Foi só o Didi dar a última aula de Improvisação por terminada - e todos nós, aprendizes de preto, batermos palmas - e tudo no que eu conseguia pensar era em algum lugar minimamente confortável para jogar meu corpinho e esquecer da existência. Drama, drama, drama. Ninguém, dos que não haviam desistido da aula no meio e ido embora, teve ânimo para descer ao vestiário para trocar de roupa. Ninguém. Fizemos malabarismos ali mesmo (pra não mostrar demais), calçamos os sapatos/tênis/sandálias e cada um foi saindo meio cabisbaixo, meio desbaratado, meio pela metade. Eu coloquei meu vestidinho branco por cima da legging e da camiseta preta, calcei o all star molinho e redentor, catei a bolsa e saí correndo pela rua, até a Afonso Pena. Tô falando serio, eu saí correndo pela rua (Tupinambás, Curitiba, Paraná) e só parei quando tava chegando à avenida e vi uma lanchonete aberta ali, naquele finzinho de dia no centro da cidade. Eu tava morta e só queria tirar um cochilo no ônibus, mas parei pra comprar uma latinha de suco de uva light... fome monstra e gastrite ameaçando gritar. Elisa para o caixa da lanchonete: "Moço, me dá um suco de uva?" "Taí, 3 reais." "Toma. (eu devia ter reclamado do preço). Quer canudinho?" Elisa: "Sim. Ahn... ah não. Quer dizer, talvez. Ah, quero não, moço. Não liga não, eu saí da aula agora e tô muito cansada."
Sim, meus caros, eu tava no nível de desabafar com desconhecidos! Lama. E não, eu não corri por estar atrasada pra pegar o ônibus... sei lá porque eu corri, na verdade. Acho que eu queria MESMO fugir daquele auditório. Pode não parecer, mas essa é a melhor maneira de começar o relato de hoje, viu.
Importante vocês saberem que na noite passada (sexta-feira), saindo da aula de Literatura Espanhola às 22:30, cheguei ao estacionamento e descobri que a bateria do carro tava arriada. É... eu não ia conseguir sair do campus e não tinha o telefone do mecânico. Meu pai estava dormindo e minha mãe mandou eu me virar. E me virei: chamei desconhecidos bêbados da calourada da FAFICH para fazer o carrim pegar no tranco, depois de muito drama interno "Não vou sair do campus nunca mais, vou ter que dormir aqui, tô com medo, o mundo é injusto, onde está o meu Deus, etc, etc". Cheguei em casa, briguei com a dona minha mãe e fui dormir p* da vida. Sabe... isso não é legal. Gosto de ter tempo de lidar com a raiva, digerir, acalmar os ânimos (e a incidência da palavra "anima = alma" não é por acaso). Dormir com raiva é uma das piores coisas que existe. O corpo não descansa, a mente não relaxa, e você pode ter sonhos horríveis durante a noite toda sobre carros arrombados, bandidos nojentos e sentimento de fracasso e injustiça, como no meu caso. Enfim, acordar foi horrível e pela manhã de hoje eu estava muito, muito mal-humorada.
Tá, parem de me xingar pelo desabafo, já estou indo pro relato das aulas em si. Só achei que seria interessante vocês saberem um pouquinho da performer, pra poderem fazer um juizo mais completo da performance. Malzaê.
Mezzo irritada, mezzo atrapalhada. Acordei tarde e tive que sair correndo, pois tinha me programado pra comprar a sapatilha de meia-ponta lá na Espírito Santo (loja "Ballet Branca de Neve", indicada pela querida mas distante Bia, no facebook) antes de ir pro SESC. Achei a loja, entrei, experimentei e comprei as sapatilhas pretas e apertadas. Só dei bola pra menininha de uns 3 anos que tava lá com a mãe comprando um figurino de abelhinha... ela ficou olhando a minha cara de desconforto ao calçar as sapatilhas, e acho que se solidarizou. Simpatizei, mas isso nào me impediu de esbarrar desastrosamente no carrinho que levava a mamadeira e as coisas dela e jogar tudo no chão quando eu tava indo embora... a culpa é da minha bolsa, não minha.
Pronto, cheguei. Garrafinha de água cheia, bunda na carteira. Duas aulas de História do Teatro com o professor Roberto. Começamos com a leitura da peça Medéia e algumas explicações do professor sobre o teatro grego. Algumas referências teóricas (Nínive Pignatari e Júlio Cabrera) e a história de uma mulher que, não tendo seu amor correspondido pelo marido - ele a chifrava - resolve vingar-se impingindo a ele uma dor maior que qualquer ferimento de morte: mata os dois filhos do casal. Medéia e seu amor odiado, seu ódio tão amado. Não achem feio da minha parte, mas não consegui sentir raiva ou desprezo pela Medéia hoje. Não que encontrasse justificativa para o seu ato, mas as paixões que arrebatam irremediavelmente o Homem estavam fazendo mais sentido... porque eu mesma estava com raiva, eu mesma estava experimentando uns sentimentos bem tremendos de irritação e tal. O mal-humor havia me deixado meio intensa, hoje.
A melhor parte dessa aula se referiu ao estudo dos conceitos de verossimilhança e mímesis no teatro. Já me deparei com esses conceitos várias vezes no meu curso, mas houve bastante diferença na abordagem do professor. Primeiro: a atuação ficcional deve ser verossímil. Isso quer dizer que a peça deve convencer o espectador de que o que está se passando em cena É a verdade: se não uma verdade na vida deles, ao menos a verdade daquele momento, daquele espetáculo. Ou seja, o ator não finge que faz algo: ele realmente o faz, e sente, e vive o personagem com absoluta realidade. O ator que finge em cena é um repetidor de palavras decoradas, um autômato programado para as reações óbvias e, pior, para provocar nada além de entretenimento em seu espectador. O poeta é um fingidor que finge a dor que deveras sente, já dizia Fernando Pessoa. Assim também o é o ator/atriz. Não basta fingir, é preciso sentir o texto e torná-lo realidade, como que por mágica, em frente aos olhos do público. Essa mulher na imagem aí de cima nào representa a Medéia, ela É Medéia. E Elisa lá, ouvindo o professor e anotando...
Quanto à mímesis, ela se refere à possibilidade de promover essa representação visceral do personagem com base na observação das pessoas no mundo: gêneros, classes, formas. Uma imitação extremamente bem-feita desses "outros sociais", menos querendo imitá-los e mais querendo sê-los, de verdade.
Fiquei conhecendo também o nome chique que posso dar praquele recurso horroroso de final de novela das oito! Sabe quando, no fim da novela, todos os problemas se resolvem como num passe de mágica? Quem brigava faz as pazes, quem tava sozinho arranja namorado, quem tinha namorado engravida (Ó! A gravidez é mesmo o ápice da existência feliz!) e quem tava gravido dá à luz bebês fofos e rosadinhos? Pois é, essa "mão divina" que resolve todos os conflitos que o autor não deu conta de resolver de um jeito inteligente se chama, no teatro, Deus ex Machina. Vou usar essa nomenclatura nos meus papos culturais na FAFICH e esnobar a rapaziada, anota aí.
Intervalo, troca de roupa e todo mundo sai da sala de aula e corre pro auditório pra uma aula super divertida de improvisação. Aham... sentá lá, Cláudia.
Dor. Dessa vez o Didi não falou muito não. Deu algumas coordenadas no início, explicando que nossa prática seria no sentido de liberar o corpo, de "provocar o caos" (ele adora essa expressão) nas nossas reações motoras e nos tornar, assim, menos ligados à nossa aparência bonitinha e normal, e mais férteis para a interpretação. Ah, e disse também que quem achasse que ia desmaiar ou sei lá mais o que, que pedisse pra sair e ficasse de cócoras, respirando, sem fechar os olhos. Tudo no maior estilo "em caso de emergência, acidente grave e perda dos sentidos, aperte aqui". Espero que não tenha sido só eu que pensei que a partir dali, estaríamos todos muito, muito, muito ferrados.
Levantar o quadril e prender a respiração, músculos tremendo, dor, suor, mais dor, vontade de chorar, dor e vontade de mandar o Didi praquele lugar. Que que ele tá querendo? "Não reclamem, não quero ouvir gemido, o público não precisa saber que você sente dor", gritava o professor de Impro. Ponte com o corpo, me apoiando com as pontas dos pés e os cotovelos. Depois só um pé. Depois, sem respirar. Exercícios para enrijecer a musculatura, sentir-se como se estivesse tentando se livrar de um chão que te prende, que não te deixa desgrudar... agonia, olhar, musculatura retesada, grito, mudez, raiva. Quando, no meio do exercício de ponte, o Didi veio me encarar e debochar de mim, pedindo que eu fizesse uma expressão de raiva, de ódio, gritando comigo... poxa vida, como eu senti ódio. Como eu me lembrei do professor Roberto e da verossimilhança... e como faz sentido não fingir raiva, mas educar o corpo para senti-la de verdade no momento em que você precise dela, em cena. É absolutamente diferente, é absolutamente libertador. A partir dali, e até o fim da aula, coloquei raiva em cada um dos exercícios. Toda a raiva do carro estragado, de ter me sentido sozinha, da minha mãe, tudo... tudo bem ali na frente do professor. Quase ao fim da aula, uma performance de verdade: tinhamos que encenar (com a trilha sonora do filme "O Piano", aquela maravilha) um encontro amoroso, uma dança, a recusa da mulher ao homem e uma segunda dança, dessa vez cheia de ressentimento e... raiva. Não vou falar da minha performance, deixo isso a cargo da imaginação fértil dos senhores. Mas foi legal, apesar das dores.
Dores. Voltamos agora à cena do all star molinho, da corrida pelas ruas do centro e, enfim, chego em casa. Um banho de olhos fechados e cama pra Elisa. Prometi pra mim mesma que só escreveria amanhã de manhã... porém, mais uma vez, o comichão da auto-ficção bateu às portas da minha consciência e aqui estou eu, despejando as bubiças. Espero não ter chorado mais pitangas que o suficiente.



domingo, 20 de março de 2011

Da tigresa

Panturrilhas e costas doendo bastante por conta da aula de Improvisação punk de ontem... Queria ter ficado o dia todo no sofá, mas sair valeu a pena [/love is in the air feelings].
Precisava postar a música que a Renata Leminski super-poderosa cantou pra mim outro dia, quando nos encontramos na cantina da Fafich. Eu não conhecia, mas fiquei fã da tal "Tigresa"! E eu já não gosto nem um pouco de felinos, né... São os animais mais bonitos da face da Terra. "Somos ainda espertos, brincalhões, orgulhosos, inteligentes e extremamente carinhosos", gritam Gaudí, Florbela e Frida, deitados no sofá aqui do meu lado.


"Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel
Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta sem certeza tudo o que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin' Days
Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair
Com alguns homens foi feliz com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz, vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão
As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não
E eu corri pra o violão num lamento
E a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento..."

Tigresa - Caetano Veloso

sábado, 19 de março de 2011

De Téspis, encontro de improviso e moonwalk

Quase perdi a aula de hoje. Meu pai está se mudando, e tive que ir ajudar com os carregamentos hoje de manhã bem cedo, pra estar liberada às 11h. Meu pai está se mudando de um apartamento no quarto andar, o que me fez subir e descer escadas milhões de vezes... e eu nem podia imaginar que estava me preparando para as aulas de improvisação de hoje. Sério.
Nada de calça estranhaurel dessa vez... fui de legging e camiseta preta, o básico. Um short larguinho por cima da legging me impediu de ficar fazendo exposição devassa da minha figura pelas ruas, até chegar ao SESC.
Primeira aula: História do Teatro, com o professor Roberto. Formado no TU e em Artes Cênicas, um moço boa praça e entendido do teatro grego. Como aula inicial, falou sobre os trágicos Ésquilo, Sófocles e Eurípides; introduziu também os mais conhecidos comediosos: Aristófanes (sim, aquele que deu a ideia mestra da greve de sexo já nos tempos mais primórdios) e Menandro. Adoro História, e adoro que me contem histórias. Sendo assim, fiquei viajando nos temas, mas imagens das estruturas de auditório grego e, claro, na figura do Téspis. Téspis, o tão falado primeiro ator reconhecido no mundo ocidental. Gostei do conto sobre esse fanfarrão que resolveu, em lugar de louvar a Dioniso, colocou-se no lugar do deus através da interpretação... Quantos não quiseram ser deuses, ou simplesmente ser outra pessoa, antes dele? Depois vou escrever um post só sobre essa história, sabia? Já divaguei litros a respeito.
E a preparação física nas escadas que subi e desci, carregando  chapéus panamá e quadros de Mariana do meu pai? Pois bem, me serviu para a aula de Improvisação, com uma nada cândida pessoa chamada Didi.
Nosso professor de Improvisação foi um grato encontro improvisado. O Didi está fazendo mestrado na Letras, e com a professora Sara Rojo, uma das melhores de que tive o prazer de ser aluna. Fantástico! E, pensando com meus botões, essa deve ser uma relação de sucesso... Didi é tão visceral no teatro como a Sara nas aulas de literatura e teatro hispanoamericano. Trabalha o corpo e a presença do ator, em primeiro lugar. Nada de recitador inanimado de textos decorados: o que o Didi parece querer de nós é uma vivência artística pra lá disso aí. Para se ter uma ideia, ele disse várias vezes que o ator/atriz começa a produzir a partir da exaustão física. "Hein?", perguntarão vocês (ou não). Sim, exaustão. Como diretor/preparador, o objetivo do Didi parece ser fazer-nos esquecer os cacoetes de postura e, pior ainda, as encenações caricatas ou mecanizadas que a gente acha que fazem sucesso em cena. "Menos é mais também na interpretação", disse o Didi. Pra quê me contorcer toda e babar pra interpretar um velho, se consigo algo mais genuíno e interessante com a expressividade do olhar, ou ao tensionar partes específicas do corpo? Fiquei fascinada, mas com medo também. Esse papo de exaustão física me lembrou algo que alguém na academia me disse uma vez (achoq ue no treino de jiu-jitsu) a respeito da exaustão. Essa pessoa me disse que quando o corpo dá sinais de que não aguenta mais, é como um alarme falso. Nosso carro diz que a gasolina já acabou, quando sempre restam ainda aqueles litros para emergência. Com o tanque quase a zero, o Didi (e alguns teóricos do teatro de que ele falou e não me lembro) acredita que nos tornamos menos capazes de coordenar nosso corpo daquela maneira como estamos acostumados a domesticá-lo. Além disso, passamos a ser mais movidos por emoções (choro, raiva do professor, desespero por causa da dor), o que influenciaria positivamente na atuação. Não sei... talvez não faça sentido pra muita gente, mas pra mim fez. Afinal... o que um espectador quer ver em um ator? Esse último não representa paixões humanas no palco? Essas coisas têm que ser viscerais, sob pena de se tornarem um Zorra Total de sábado à noite.
Estranhou a imagem de uma aula de Kung-fu neste post? Pois ela explica bem o que veio depois desse tempo ouvindo o que o Didi tinha a dizer sobre improvisação. O que veio foi exaustão muscular, respiratória, mental. Pulos, gritos, variações enlouquecedoras na respiração, e até versões disso aí que os moços estão fazendo na imagem, o ma bu. Já tentou ficar nessa posição até as pernas começarem a tremer sem parar, o suor escorrer, a dor nas coxas ser insuportável? E já tentou fazer isso na ponta dos pés? O ma bu tem suas justificativas no Kung-fu. Nada disso é praticado com o simples objetivo da dor... e acredito que também não seja o caso da prática com o Didi. No Kung-fu espera-se alcançar níveis de consciência mais sutis com essa prática. Após o período inicial de dor intensa (se a genet aguentar), é possível entrar num estágio de profunda observação do próprio corpo, do equilíbrio... e tudo isso, nem preciso dizer, é uma maneira de encontrar em si mesmo determinação, foco. Gosto disso, mas confesso que parece bem menos elevado e nobre quando você está lá ouvindo os gritos do Didi e suando como porco indo pro abate. Agora à noite, sentada no sofá da sala, sinto que tenho um joelho esquerdo um tiquinho mais ferrado do que tinha hoje de manhã!
Não... a tarde não tinha acabado. Depois de uns minutos para beber água e de uma crise de cãimbra bem chorosa de uma mocinha (meu palpite é que pelo menos metade da turma estava querendo chorar, àquela altura), começou a última aula: Mímica Clássica.
A professora Sula parece uma ex-bailarina, pelo porte e pela delicadeza. Essa aula foi um bálsamo depois do sofrimento e chororô da aula anterior! Sabe aquelas músicas de cinema-mudo? Aquelas animadinhas que lembram Charlie Chaplin? Pois é, começamos com um aquecimento das articulações, todos voltados para a parede de espelhos, nos movendo de um jeito que lembrava demais o cinema-mudo. A professora ia fazendo os movimentos, sempre sorrindo de leve, e a gente parecendo um bando de patinhos desajeitados atrás da mamãe-pata. Eu ri! Sempre soube que sou desastrada e mega desarticulada, e dessa vez não foi diferente. Tenho que ter paciência comigo, e isso talvez seja o mais difícil pra quem quer aprender bem e rápido!
Sula repetia, durante a aula: "'Mímica é concentração e repetição. Concentrem-se no movimento e nada mais", enquanto passava a primeira posição dos pés e, na sequência, a primeira posição das mãos. Se parece muito com uma aula de ballet para iniciantes... teremos que usar sapatilhas, e o primeiro movimento é uma espécie de corrida simulada, sem sair do lugar. Simula a corrida para frente e para trás, e esse último é praticamente o clássico moonwalk michaeljacksoniano! Rimos bastante, principalmente para escondermos nossa falta de coordenação e nervosismo. Parece tão fácil! Mas para correr pra frente com desenvoltura e expressividade é necessário coordenar os passos com pés em meia-ponta e uma sucessão de pliés e relevés típicos do ballet... e eu nunca fiz ballet né personas? Vou comprar as sapatilhas que a Sula pediu e treinar durante a semana.
Teve também a primeira posiçào das mãos, a chamada "onda". Um movimentozinho aparentemente ridículo que acaba fazendo doer da ponta do dedo anelar até o pulso depois de uns minutos de prática. Medo dessas torturazinhas teatrais, viu? Talvez eu preferisse as pontas dos dedos descamadas de tanto agarrar kimono no jiu-jitsu! rsrs
Pra fechar, a professora Sula sugeriu que os alunos escrevessem sobre as aulas, para montarem para si uma espécie de apostila de técnicas teatrais. Escrever sobre a prática do dia exercita a memória e facilita o manuseio dos conhecimentos na medida em que avancemos no curso. Olha só, a Elisa já faz isso aqui! Claro que a descrição aqui deixa várias coisas de fora, né?... O blog tá mais para um compacto comentado dos melhores momentos... e eu só consigo fazer assim.
Agora sim, pra fechar: estou aceitando doações de sapatilhas de ensaio de ballet! Gracias.


terça-feira, 15 de março de 2011

De "La vida es sueño" e liberdade



Foi uma das muitas vezes em que eu chorei no cinema. Assistindo ao filme Tempos de Paz, um filme nacional muito bom, que é quase todo ele um diálogo impressionante entre as personagens de Dan Stulbach e Tony Ramos. Não vou contar a história, tenho preguiça, mas o filme é todo bom. Ainda que não o fosse, valeria pela cena em que a personagem de Dan Stulbach recita o monólogo de Segismundo, cena que está nesse vídeo aí do youtube.
Na época em que vi o filme no cinema, não conhecia a peça de teatro que tem Segismundo como personagem central. Mesmo sem saber toda a história dele, e nem porque ele sentia tanta dor por não conhecer a liberdade e se revoltava contra os céus, chorei que nem menino pequeno. Porque é sempre assim, a última coisa de que a gente precisa pra cair no choro é um motivo racional ou plausível. Canceriana falando.
A peça se chama La vida es sueño, e é do Calderón de la Barca. Enfim eu li a peça no fim do ano passado, para uma matéria lá da Letras... nem me lembrava mais da cena, mas foi só começar a ler o monólogo (dessa vez em espanhol) e veio o estalo. Conhecendo o enredo, tudo fazia sentido! No cinema foi algo como "Sim, estou chorando porque é bonito, porque a interpretação é boa, mas sabemos que clamar pela liberdade não faz muito sentido, ninguém é livre pô!". Agora, no aconchego  da biblioteca da Fafich, Segismundo me contou de uma outra liberdade: a liberdade de conhecer a si mesmo, de se reconhecer como parte da Vida na Terra, com possibilidades de escolhas (mesmo aquelas mais presas pelas contingências). Ele não queria aquela liberdade tola, de poder fazer o que quisesse ou sei lá o quê. O Segismundo, aquele criado na torre por razões que sempre estiveram fora do seu entendimento, almejava a liberdade de buscar um destino com suas próprias mãos, buscar o auto-conhecimento. O caminho que ele trilha na obra é muito bonito: da quase bestialidade de um "homem-fera", criado à margem das relações sociais, do afeto, e de mil outras experiências que pra nós são tão triviais, passando pela crueldade e o desejo de vingança, até encontrar a si mesmo e à sua humanidade. Daí o Segismundo me contou isso tudo e foi embora, e eu fiquei lá toda bocó chorando de novo.
Bom, vale a pena ver o filme e ler a peça. E nem vou comentar a identificação que rolou com o tema das duas obras, dado o momento da vida elisística.

P.S.: Estou quase meio um tanto quanto ansiosa pra chegar sábado logo. É... isso era esperado.

sábado, 12 de março de 2011

Do ridículo

Não, não me inscrevi na oficina da Débora... não teria dinheiro pra pagá-la e ainda bancar a mensalidade do SESC. De qualquer forma, não seria legal deixar de ir à minha primeira aula de teatro, que foi hoje. Terei aula aos sábados, das 13h às 18h. o.O
Desde que acordei estava ansiosa para essa aula. Na verdade, desde ontem, mas por motivos mais pessoais e nada felizes... Bom, escolhi começar o teatro, e isso significa bancar outras decisões que vêm no pacote. Terei menos tempo no fim de semana, e isso implica em reorganizar meu tempo com as pessoas: mãe, pai, namorado, amigos... Além de ter que ser mezzo dona-de-casa também, já que divido as funções por aqui com a minha mãe e o sábado é o dia mundial dos afazeres domésticos pra quem trabalha fora, né? Enfim, coisas.
Escolhendo a roupa para a aula: confortável, nada de jeans... e só me sobrou uma dessas calças horrorosas que tá saindo de moda, a tal saruel. Tenho uma preta que já usava pra dormir, de tanto não ter coragem nem de ir à esquina com ela. Usei, né? Fazer o quê. Ela, uma regata preta e o all star branco. Legal foi descobrir que acertei na mosca! O uniforme lá é a camiseta preta do curso (com as máscaras bacanas do teatro) e uma legging ou calça preta. O uniforme é necessário, segundo o professor, para que um aluno não chame mais a atenção visual do professor/monitor que os outros, o que dificultaria nas correções de postura e atuação. Parece que em todos os momentos o foco das nossas atenções deve estar no corpo e nas suas movimentações, e tudo o que nos desvie desse foco deve ser evitado.
Mas eu já dei um salto enorme no tempo. Na verdade eu ainda estou saindo de casa, com a roupa adequada lá. Daí veio o ônibus, daí veio a chuva, daí veio o desânimo de imaginar minhas tardes inteiras de sábado em uma sala de aula/ auditório, daí veio a certeza de que a minha bunda estava enorme naquela calça, daí veio o SESC.
Esperando um pouquinho o início da aula, fui conversando com alguns dos outros alunos. Uma parte deles já está no segundo semestre (módulo), e uns poucos já estão no terceiro, que corresponde à montagem de uma peça teatral. São pessoas legais, animadas, a maioria de jovens entre 20 e 30 anos. Há alguns senhores e senhoras também. Como foi a primeira aula, ficamos todos juntos, mas não será sempre assim. Minha turma, os iniciantes, tem matérias diferentes das desses outros.
Sim, matérias! Você ouviu bem! Assim que entramos em uma sala de aula parecidíssima com as da Fafich, o coordenador do curso, chamado Diocélio (eu já o vi em várias campanhas da TV Alterosa!), nos explicou que teríamos matérias como História do Teatro, Literatura Dramática (\o/), Mímica Clássica, Improvisação I e II e Interpretação I e II, e outras que esqueci. Ou seja... eu realmente ficarei com o bumbum sentado numa carteira ao menos uma parte das minhas tardes de sábado. E eu espero que ao menos ele esteja menor do que estava com aquela calça saruel ridícula.
RIDÍCULO. Foi a palavra que o Diocélio escreveu enorme lá no quadro-negro. Quem quer ser ator/atriz não pode ter medo do ridículo, isso é fato. Mas o que ele queria que pensássemos era nas raízes desse medo que todos temos de "ser ridículo". Medo que tem muito a ver com a educação, com certas amarras sociais (necessárias, pois regulam nossa vida em sociedade, mas ainda assim são amarras) que nos impedem de falar impropérios, abraçar desconhecidos, sair só de cueca na Afonso Pena (quando não é carnaval) y otras cositas más. Pois é.
O trabalho do ator/atriz parece consistir exatamente em explicitar essas amarras pela negação delas, no palco. O estranhamento do seu "ridículo" cômico ou da sua dor dramática servem para colocar o espectador (e antes de tudo, o ator/atriz) em contato desvelado e direto com as emoções e contradições humanas. E a Elisa nessa hora fez uma cara de "Aaaaaah... caramb* nossa! Quero tentar fazer isso. Tô cheia de amarras sociais aqui, ó."
Descemos para o auditório, tiramos os sapatos e dá-lhe exercícios! Alongamento. Desinibição. Memória. Coordenação. Expressão corporal. Criatividade. Aquecimento e Expressão Vocal. Tudo isso observado e comentado pelo professor em várias atividades diferentes, fosse cantando uma musiquinha de aquecimento vocal doida demais ou correndo pelo auditório aleatoriamente. Olho no olho do coleguinha, emoções com o olhar. Observar o próprio corpo, o próprio corpo, o próprio corpo. O tempo todo. Só nessa hora entendi porque vamos estudar mímica antes de ver interpretação em si. Se expressar pela fala é fácil, né? Fazemos isso o tempo todo. Difícil mesmo é educar o corpo pra dizer o que a gente tem a dizer. Escutem bem, a Elisa vai penar. Ela teve vergonha até pra se apresentar pro povo! E olha que em geral eu não tenho não... acho que foi porque eu já tava com uma intuição de que aquilo não seria uma apresentação qualquer de mim mesma. É bem provável que eu ME apresente a mim mesma com o decorrer das aulas... mas por enquanto isso é só uma promessa.
No fim da aula, grupos de quatro alunos apresentando um sketch. Cena curtinha, tivemos que improvisar mal e porcamente, pois esquecemos o enredo.... eita memorização. Será que ainda vendem em bancas aqueles kits que ensinam a memorizar coisas? Tomara. Encerramos com umas imposições de mão do reiki, lembrei da minha mãe! O Diocélio parece ser um tipo meio místico, fala em energia e campos energéticos o tempo todo. E... né? Lembrava da minha mãe na hora.
Ah! Me lembrei de um momento: tem um aluno lá que faz mestrado em psicologia. Ele disse em sua apresentação que o teatro o ajudaria na dissertação (olha eu me sentindo uma cobaia de testes psico-patológicos...). O comentário do Diocélio, qual foi? "Ah, meu filho, Freud grita aqui!". Ótimo. Nem preciso dizer que a sorte riu da minha cara e me colocou como dupla desse psicólogo no exercício de expressar emoções pelo olhar. O Diocélio mandava: "Gente, olhem nos olhos um do outro e busquem enxergar a alma que está lá dentro!". Eu não vi nada da alma dele, só ficava pensando em quanto de energia ki [/dragonball] eu precisava juntar pra dar uma blindada nos meus freudianismos interiores.
Cheguei em casa às 18:30, suada, cansada e com uns pés pretos que tavam um nojo! Mas não tem jeito, aula só descalço. Banho, camisola... tô feliz! Tão feliz como todas as pessoas na face da Terra que começam uma coisa nova.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Da oficina de improvisação da Débora

Que preguiça de dia, meu Pai! Nem o carro tirei da garagem hoje. "Tenho que praticar, eu sei, mas não agora", foi o que falei com o quatro rodas antes de fechar o portão e ir pegar meu ônibus, mezzo atrasada, pra ir pra musculação. Estou encarando esse começo de ano preguiçoso como uma boa preparação para a rotina puxada que vai começar depois do carnaval...
Não fui ao treino de jiu-jitsu, sinto que cheguei ao fim da minha empolgação inicial com ele.  Objetivo elisístico: parar de funcionar através de empolgações de curto período, tentar ter mais paciência e persistência. Simples, né? Não.
Tinha que ter ido resolver coisas da transferência do meu carro lá no Detran, mas a chuva fininha e o tempo nublado me desarticularam e me ofereceram o banho, o pijama e a cama bem no meio da tarde... não resisti. Elisa, sua molenga! Ok, hora de parar de listar as coisas que eu devia ter feito e não fiz.
O ponto alto do dia foi agorinha mesmo, abrindo o gmail. Encontrei um e-mail da Débora Vieira, aquela atriz muito massa que conheci pela internet junto com uma meia dúzia de doidos, os quais fui conhecer pessoalmente numa noite no BH Beer. Faz tempo isso! Pois é. Foi pra ela e para mais umas moças atrizes muito mocinhas e solícitas (Flávia Almeida, Bella Marcatti...) que pedi ajuda quando me veio à cabeça essa ideia - que ainda não sei onde vai parar - de investir no teatro.
Pois é, a Débora vai oferecer uma oficina de improvisação teatral! E o mais legal disso é que o público-alvo inclui pessoas como eu, sem nenhuma experiência em "improvisação" e quase nenhuma em "teatral". O menos legal, devo admitir, é o valor do investimento... vixi. Acho que vou começar a dar aulas particulares de espanhol na cantina da letras!
Tenho que pensar com meus botões... acho que dá pra me apertar um tiquinho mais pra poder estar na oficina. Veremos.

terça-feira, 1 de março de 2011

Dos objetivos

Comecei a divulgar isso aqui pros coleguinhas sem sequer ter esclarecido pra que ele serve. Na verdade, ele não deve servir pra muita coisa: a ideia é só dividir com umas pessoas legais o que provavelmente vai rolar nas minhas aulas de teatro a partir de agora. Me lembro que, quando fazia teatro na escola, tinha vontade de dividir certas coisas e não sabia exatamente como. Enfim, é isso. Não liguem pra esse início auto-biográfico chato, prometo que nào vou ficar falando de mim no centro da cidade ou no banco ou blábláblá. Gracias.

Da matrícula

Olá! Daí que eu fui fazer a minha matrícula no curso de teatro do SESC ontem de manhã. Por que não entendo as burocracias? Por que não consigo responder a todas elas do jeito natural que todo mundo diz que faz? Achei que era chegar chegando, e nem dinheiro pra fazer a carteirinha do SESC eu tinha. Vinte e dois reais, na lata. E ainda disseram que não cobram matrícula, como se fosse um negoção! Hunf.
Mas no dinheiro mais ou menos eu pensei antes de sair de casa, e como não tinha nem um tostão no banco, apelei pro meu pai. Maaaais uma vez. Até quando ele vai bancar as minhas pequenas loucuras? Espero que não por muito tempo, me incomoda. Bom, mas eu estava na minha manhã no centro da cidade, perdida no meio daquele tanto de carros e gentes e abrindo mais uma vez a minha bolsa no meio da rua, como prometi que nunca mais faria. Pessoas responsáveis e seguras não abrem a bolsa no meio de uma rua do centro de Belo Horizonte. Não abrem!
Tinha traçado meu plano de "centro da cidade - campus UFMG - bandejão - casa da minha orientadora - Ponteio Lar Shopping" todo no google na noite anterior. Sabe como é, nesta minha fase de medo do próprio carro eu nunca faria esse trajeto driving by myself. Deu no que deu. O Ponteio Lar Shopping foi ideia do meu pai, que está montando o apartamento novo e me pediu ajuda pra comprar uns móveis... estranhamente. Estranhamente porque ele contratou uma mezzo arquiteta mezzo decoradora que manda em todas as compras dele. Nunca vi isso! Nunca contrataria uma dessas... minha casa tem que ter a minha cara, pô! Tudo bem que a minha casa atual é esse buraco cheio de livros, uns quadros meio expressionistas de feira e uma máscara africana na parede, mas pelo menos é tudo a minha cara. Ou não.
Volto pro centro e chego lá na porta do SESC. Claro que primeiro entrei na portaria errada e conversei com o porteiro errado. Cheguei a um guichê que por milagre era o certo e esperei a loiruda da frente resolver suas pendengas com um clube recreativo de Venda Nova ou algo parecido e lá fui eu. Um senhor simpático, eu mais simpática ainda (certeza que era porque eu sabia que não ia ter algum dos papéis que esse povo burocrata pede e teria que contar com a boa vontade dele).
Passa a lista pra cá, seu moço! "Você vai precisar de: vinte e dois reais na mão (não podia ser no débito, droga), CPF, identidade foto 3x4 (RÁ! Claro que eu não tinha isso) e uns dados pessoais que ele pediu. O truque da simpatia a toda prova deu certo, mais uma vez. O senhor preencheu minha ficha e me permitiu correr como louca nas ruas do centro atrás de banco pra sacar dinheiro e de unas fotos instantâneas 3x4, de modo que eu não tive que enfrentar ooooooooutra vez a fila pra me inscrever etc e tal.
Duas quadras mais à frente: banco. Tiro tudo da bolsa de metal, guardinha me olhando. Não gosto quando me olham assim, como se eu estivesse atrapalhando... caiu tudo no chão, e atravanquei mais ainda a porta giratória. Fofa, eu.
Depois, fotos 3x4. Preciso dizer que eu não tava nada preparada pra tirar fotos 3x4? Maquiagem zero, cabelo bagunçado de correr, suada até a alma. Oito fotos por nove reais, e já não teria dinheiro nenhum pro bandejão da semana...
A essa hora eu já estava atrasada para o bandejão com o namorado, logo estava atrasada para o encontro com a orientadora.
O importante é que me inscrevi. As aulas começam no primeiro sábado depois do carnaval, dia 12 de março. Tardes de teatro, e espero que eu encontre o que estou procurando... que não é mais que uma meia dúzia de respostas. Pra isso, taí aquela "Vinte anos blues" cantada pela Elis Regina:

Ontem de manhã quando acordei
Olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de 20 anos

E eu tenho mais de mil perguntas sem respostas
Estou ligada num futuro blue