Quase que não conto nada hoje, viu... Foi só o Didi dar a última aula de Improvisação por terminada - e todos nós, aprendizes de preto, batermos palmas - e tudo no que eu conseguia pensar era em algum lugar minimamente confortável para jogar meu corpinho e esquecer da existência. Drama, drama, drama. Ninguém, dos que não haviam desistido da aula no meio e ido embora, teve ânimo para descer ao vestiário para trocar de roupa. Ninguém. Fizemos malabarismos ali mesmo (pra não mostrar demais), calçamos os sapatos/tênis/sandálias e cada um foi saindo meio cabisbaixo, meio desbaratado, meio pela metade. Eu coloquei meu vestidinho branco por cima da legging e da camiseta preta, calcei o all star molinho e redentor, catei a bolsa e saí correndo pela rua, até a Afonso Pena. Tô falando serio, eu saí correndo pela rua (Tupinambás, Curitiba, Paraná) e só parei quando tava chegando à avenida e vi uma lanchonete aberta ali, naquele finzinho de dia no centro da cidade. Eu tava morta e só queria tirar um cochilo no ônibus, mas parei pra comprar uma latinha de suco de uva light... fome monstra e gastrite ameaçando gritar. Elisa para o caixa da lanchonete: "Moço, me dá um suco de uva?" "Taí, 3 reais." "Toma. (eu devia ter reclamado do preço). Quer canudinho?" Elisa: "Sim. Ahn... ah não. Quer dizer, talvez. Ah, quero não, moço. Não liga não, eu saí da aula agora e tô muito cansada." Sim, meus caros, eu tava no nível de desabafar com desconhecidos! Lama. E não, eu não corri por estar atrasada pra pegar o ônibus... sei lá porque eu corri, na verdade. Acho que eu queria MESMO fugir daquele auditório. Pode não parecer, mas essa é a melhor maneira de começar o relato de hoje, viu.
Importante vocês saberem que na noite passada (sexta-feira), saindo da aula de Literatura Espanhola às 22:30, cheguei ao estacionamento e descobri que a bateria do carro tava arriada. É... eu não ia conseguir sair do campus e não tinha o telefone do mecânico. Meu pai estava dormindo e minha mãe mandou eu me virar. E me virei: chamei desconhecidos bêbados da calourada da FAFICH para fazer o carrim pegar no tranco, depois de muito drama interno "Não vou sair do campus nunca mais, vou ter que dormir aqui, tô com medo, o mundo é injusto, onde está o meu Deus, etc, etc". Cheguei em casa, briguei com a dona minha mãe e fui dormir p* da vida. Sabe... isso não é legal. Gosto de ter tempo de lidar com a raiva, digerir, acalmar os ânimos (e a incidência da palavra "anima = alma" não é por acaso). Dormir com raiva é uma das piores coisas que existe. O corpo não descansa, a mente não relaxa, e você pode ter sonhos horríveis durante a noite toda sobre carros arrombados, bandidos nojentos e sentimento de fracasso e injustiça, como no meu caso. Enfim, acordar foi horrível e pela manhã de hoje eu estava muito, muito mal-humorada.
Tá, parem de me xingar pelo desabafo, já estou indo pro relato das aulas em si. Só achei que seria interessante vocês saberem um pouquinho da performer, pra poderem fazer um juizo mais completo da performance. Malzaê.
Mezzo irritada, mezzo atrapalhada. Acordei tarde e tive que sair correndo, pois tinha me programado pra comprar a sapatilha de meia-ponta lá na Espírito Santo (loja "Ballet Branca de Neve", indicada pela querida mas distante Bia, no facebook) antes de ir pro SESC. Achei a loja, entrei, experimentei e comprei as sapatilhas pretas e apertadas. Só dei bola pra menininha de uns 3 anos que tava lá com a mãe comprando um figurino de abelhinha... ela ficou olhando a minha cara de desconforto ao calçar as sapatilhas, e acho que se solidarizou. Simpatizei, mas isso nào me impediu de esbarrar desastrosamente no carrinho que levava a mamadeira e as coisas dela e jogar tudo no chão quando eu tava indo embora... a culpa é da minha bolsa, não minha.
Pronto, cheguei. Garrafinha de água cheia, bunda na carteira. Duas aulas de História do Teatro com o professor Roberto. Começamos com a leitura da peça Medéia e algumas explicações do professor sobre o teatro grego. Algumas referências teóricas (Nínive Pignatari e Júlio Cabrera) e a história de uma mulher que, não tendo seu amor correspondido pelo marido - ele a chifrava - resolve vingar-se impingindo a ele uma dor maior que qualquer ferimento de morte: mata os dois filhos do casal. Medéia e seu amor odiado, seu ódio tão amado. Não achem feio da minha parte, mas não consegui sentir raiva ou desprezo pela Medéia hoje. Não que encontrasse justificativa para o seu ato, mas as paixões que arrebatam irremediavelmente o Homem estavam fazendo mais sentido... porque eu mesma estava com raiva, eu mesma estava experimentando uns sentimentos bem tremendos de irritação e tal. O mal-humor havia me deixado meio intensa, hoje.
A melhor parte dessa aula se referiu ao estudo dos conceitos de verossimilhança e mímesis no teatro. Já me deparei com esses conceitos várias vezes no meu curso, mas houve bastante diferença na abordagem do professor. Primeiro: a atuação ficcional deve ser verossímil. Isso quer dizer que a peça deve convencer o espectador de que o que está se passando em cena É a verdade: se não uma verdade na vida deles, ao menos a verdade daquele momento, daquele espetáculo. Ou seja, o ator não finge que faz algo: ele realmente o faz, e sente, e vive o personagem com absoluta realidade. O ator que finge em cena é um repetidor de palavras decoradas, um autômato programado para as reações óbvias e, pior, para provocar nada além de entretenimento em seu espectador. O poeta é um fingidor que finge a dor que deveras sente, já dizia Fernando Pessoa. Assim também o é o ator/atriz. Não basta fingir, é preciso sentir o texto e torná-lo realidade, como que por mágica, em frente aos olhos do público. Essa mulher na imagem aí de cima nào representa a Medéia, ela É Medéia. E Elisa lá, ouvindo o professor e anotando...
Quanto à mímesis, ela se refere à possibilidade de promover essa representação visceral do personagem com base na observação das pessoas no mundo: gêneros, classes, formas. Uma imitação extremamente bem-feita desses "outros sociais", menos querendo imitá-los e mais querendo sê-los, de verdade.
Fiquei conhecendo também o nome chique que posso dar praquele recurso horroroso de final de novela das oito! Sabe quando, no fim da novela, todos os problemas se resolvem como num passe de mágica? Quem brigava faz as pazes, quem tava sozinho arranja namorado, quem tinha namorado engravida (Ó! A gravidez é mesmo o ápice da existência feliz!) e quem tava gravido dá à luz bebês fofos e rosadinhos? Pois é, essa "mão divina" que resolve todos os conflitos que o autor não deu conta de resolver de um jeito inteligente se chama, no teatro, Deus ex Machina. Vou usar essa nomenclatura nos meus papos culturais na FAFICH e esnobar a rapaziada, anota aí.
Intervalo, troca de roupa e todo mundo sai da sala de aula e corre pro auditório pra uma aula super divertida de improvisação. Aham... sentá lá, Cláudia.
Dor. Dessa vez o Didi não falou muito não. Deu algumas coordenadas no início, explicando que nossa prática seria no sentido de liberar o corpo, de "provocar o caos" (ele adora essa expressão) nas nossas reações motoras e nos tornar, assim, menos ligados à nossa aparência bonitinha e normal, e mais férteis para a interpretação. Ah, e disse também que quem achasse que ia desmaiar ou sei lá mais o que, que pedisse pra sair e ficasse de cócoras, respirando, sem fechar os olhos. Tudo no maior estilo "em caso de emergência, acidente grave e perda dos sentidos, aperte aqui". Espero que não tenha sido só eu que pensei que a partir dali, estaríamos todos muito, muito, muito ferrados.
Levantar o quadril e prender a respiração, músculos tremendo, dor, suor, mais dor, vontade de chorar, dor e vontade de mandar o Didi praquele lugar. Que que ele tá querendo? "Não reclamem, não quero ouvir gemido, o público não precisa saber que você sente dor", gritava o professor de Impro. Ponte com o corpo, me apoiando com as pontas dos pés e os cotovelos. Depois só um pé. Depois, sem respirar. Exercícios para enrijecer a musculatura, sentir-se como se estivesse tentando se livrar de um chão que te prende, que não te deixa desgrudar... agonia, olhar, musculatura retesada, grito, mudez, raiva. Quando, no meio do exercício de ponte, o Didi veio me encarar e debochar de mim, pedindo que eu fizesse uma expressão de raiva, de ódio, gritando comigo... poxa vida, como eu senti ódio. Como eu me lembrei do professor Roberto e da verossimilhança... e como faz sentido não fingir raiva, mas educar o corpo para senti-la de verdade no momento em que você precise dela, em cena. É absolutamente diferente, é absolutamente libertador. A partir dali, e até o fim da aula, coloquei raiva em cada um dos exercícios. Toda a raiva do carro estragado, de ter me sentido sozinha, da minha mãe, tudo... tudo bem ali na frente do professor. Quase ao fim da aula, uma performance de verdade: tinhamos que encenar (com a trilha sonora do filme "O Piano", aquela maravilha) um encontro amoroso, uma dança, a recusa da mulher ao homem e uma segunda dança, dessa vez cheia de ressentimento e... raiva. Não vou falar da minha performance, deixo isso a cargo da imaginação fértil dos senhores. Mas foi legal, apesar das dores.
Dores. Voltamos agora à cena do all star molinho, da corrida pelas ruas do centro e, enfim, chego em casa. Um banho de olhos fechados e cama pra Elisa. Prometi pra mim mesma que só escreveria amanhã de manhã... porém, mais uma vez, o comichão da auto-ficção bateu às portas da minha consciência e aqui estou eu, despejando as bubiças. Espero não ter chorado mais pitangas que o suficiente.

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