domingo, 10 de abril de 2011

Do olhar

Foi um sábado mais tranquilo no teatro, talvez para compensar meus desgastes psicológicos anteriores! Este fim de semana estreei dando aulas de espanhol no curso de idiomas do Coltec, e estava bastante ansiosa no sábado de manhã. A partir de agora a dona Elisa dá aulas aos sábados, das nove horas da manhã ao meio-dia, precisando estar no SESC à uma da tarde. Não vou dizer que não dá, mas almoçar já não me pertence mais. Terei que traçar uma estratégia, porque a gastrite tá aí e não aceita muito esse papo de pipoca Aritana no almoço. Enfim.
As aulas de História do Teatro passaram lentamente. Confesso que não gostei da ideia do professor de ler a peça inteira conosco, apesar de saber que é necessário conhecer e praticar oratória. Apesar dessa parte maçante do dia, me animei com os planos que o professor tem para a matéria. Avançaremos para as farsas da Idade Média, mas nos deteremos mesmo no Renascimento e... VIVA! Shakespeare!
Estava ansiosa e pronta para perguntar ao professor se ele se deteria ou não nas obras do grande escritor da alma humana. Sim, eu sei que nenhum professor de História do Teatro em sã consciência desprezaria Shakespeare, mas precisava confirmar. Sou apaixonada pelo legado desse autor, ele me emociona desde a oitava série, quando descobri Otelo através de um professor de Português, o Paulo César. Quantas vezes eu dramatizei Desdêmona em frente ao espelho! Já naquela época, morrer sendo inocente em uma peça de teatro me parecia o supra-sumo da tragédia, a glória, o ponto mais alto da auto-vitimação. Fala sério, tenho vocação pra mártir.
Intervalo, hora de legging e sapatilha. Do vestiário para a sala de espelhos, me deparo com todo mundo já deitado no chão. Teatro, meu caro. Teatro. Me deito, e é engraçado como me passou pela cabeça o questionamento de sempre, aquele que me acompanha desde a matrícula: "Por que estou me sujeitando a isso? O que espero encontrar aqui?". A Ana Luiza deitada do meu lado, desconcentração à vista. Eu disse que ia falar dela aqui, então ela já está avisada. Lagoa-santense bacana que gosta de cachorros, na luta pra entrar no curso de Artes Cênicas. Oi Ana Luiza! Levanta essa cabeça do chão e senta pra conversar comigo enquanto a professora não chega! Eu estou extremamente elétrica por causa da manhã tumultuada, desconcentração à vista [2].
Começamos com um exercício em duplas, de observação do outro. Sim, a Nalu era a minha parceira, e devíamos ficar sentadas no chão, uma em frente à outra, nos olhando. Mais tarde a professora explicaria que isso é parte das práticas mais básicas do teatro: um ator sempre olha nos olhos do outro em cena, para manter uma conexão. "Vocês são parceiros em cena: uma dupla, um trio, um grupo, uma companhia. Para desarmar seu companheiro de cena totalmente, basta baixar o olhar. A conexão desaparece, não há mais como comunicar-se com os olhos, as personagens se perdem".
Impossível manter os olhos nos olhos da Nalu. Ríamos feito duas criancinhas bobas, mesmo quando passamos ao exercício seguinte: uma se movia, dando atenção às articulações, enquanto a outra devia repetir os gestos. Tentei, tentei focar. Mas desisti.
Na roda que se formou depois para contar as experiências, várias pessoas falando da dificuldade inicial de manter o olho-no-olho, dificuldade logo superada. E eu lá, esperando pra admitir o meu fracasso. A professora pediu que primeiro cada um fizesse uma análise de seu companheiro, do comportamento dele no exercício. Depois, como muitos falassem da dificuldade do olhar, ela pediu que explicássemos por que era difícil (ou fácil) olhar nos olhos do outro. Opiniões interessantes, principalmente a respeito da necessidade de "resposta" do olhar do companheiro: os dois devem estar comprometidos, focados, a intenção de "fazer certo" deveria se sobrepor a tudo. Houve quem dissesse que não conseguir manter o olhar do outro fosse uma questão de falta de comprometimento, ou até de responsabilidade. Obviamente, isso me irritou. Sou muito comprometida com tudo o que faço, inclusive com as aulas de teatro. Por isso, algo além me impediu de olhar nos olhos da Nalu.
Enfim, vamos à auto-crítica que expus (ou acho que expus): tenho medo dos olhos. Como disse uma das alunas, os olhos revelam coisas demais, e saber que há alguém empenhado em nada mais que olhar nos meus olhos por vários minutos me constrange, me irrita até. Não gosto. Todos têm coisas a esconder, todos se sentem impelidos a desviar o olhar quando mentem, por exemplo. Para distrair-me da situação incômoda de ser descaradamente observada, eu ri, ela riu. Eu brinquei, ela brincou. Eu fingi que não era importante, ela fez o mesmo. Porque é tudo ação e reação, o olhar exige reciprocidade.
O olhar começa relações, ele é o flerte inicial. E não é à toa. É possível sondar almas pelo olhar, sondar desejos e os sentimentos mais inconfessáveis. Que me olhem nos olhos quando eu estiver segura de que já escondi tudo o que não deve ser visto numa gaveta bem escura e bem lá no fundo. Não me olhe nos olhos quando estiver desarmada, numa aula de teatro. Não me olhe nos olhos quando estiver apaixonada ou com inveja. Não me olhe nos olhos quando eu estiver com sono, porque eles ficam pequenos, cheios de rugas e com olheiras enormes de moldura. Credo.
Falemos então do ator: ele precisa olhar nos olhos. Logo, ele precisa ter olhos de livro aberto, deve ser uma alma absolutamente legível? Não necessariamente. Como todo ser humano, o ator tem seus segredos, e é bom que os tenha. Mas algo com relação ao olhar do ator deve ser diferente: sua alma deve deslocar-se. Ele deve saber domar os olhos de modo que exprima menos da sua própria alma, e mais da alma da personagem que tem o dever de interpretar com VEROSSIMILHANÇA, com VERDADE. É necessário interpretar com voz, braços, pernas, boca, mas principalmente com os olhos. Emprestar por algumas horas ou dias ou meses as janelas da sua alma (e talvez parte da sua própria alma) ao exercício de uma outra existência. Pensando assim, a interpretação seria um exercício de desapego de si, com inúmeras possibilidades de ser verdadeiramente outro. Seu espectador poderá ver no ator um outro, e identificar-se com ele, julgá-lo, dar seu veredicto moral, e desta forma estará refletindo sobre si mesmo.
Será que a Elisa poderá ser uma boa atriz, tendo tanto a esconder? Talvez. Talvez um mundo interior rico seja boa e variada matéria para a composição de diferentes personagens, ou talvez apenas me confunda. Talvez. Como dever de casa, continuarei a observação dos olhares nas ruas, tentado desvendar os "porquês" e os "comos" dos olhares.
Reflexões sobre alma e olhar suspensas por enquanto. É hora de ensaio de uma coreografia divertida com a professora, que me lembrou muito aqueles musicais da Broadway. Todo o grupo, ao som das músicas bonitinhas da mímica, tentando chegar perto da tal sincronia. Como é difícil! É suado esse negócio de coordenar a dança de um grupo grande de pessoas. Um monte de pezinhos tentando marcar posições, acelerar, marcar posição das mãos (um negócio bem ballet)... falar ajuda: um, dois, três quatro, cinco seis, sete, oito. A bagunça começou a tomar forma.
Iremos incluindo novos movimentos nessa coreografia durante o semestre, que podem vir no início, no fim ou entre os movimentos já dados. Onde está meu curso de memorização?
Enfim, suadinha leve, saldo negativo na panturrilha esquerda (mas ela já andava meio capenga desde sexta-feira, na musculação). Ná próxima aula de mímica, que acontecerá só depois do feriado, deveremos apresentar individualmente uma sequência de movimentos da mímica clássica, podendo levar figurino e escolher a música. Ainda não pensei no que vou fazer... já que a base dos movimentos é a mesma pra todos nós, terei que ser criativa! Talvez eu fique bem com aquela maquiagem branca de mímica, a la Marcel Marceau. hehe
Tô mesmo preocupada é com a cena que o Didi propôs para a aula de Improvisação. Lembra que vou ter que fazer uma cena dramática e de tensão crescente na próxima aula? Já tenho a ideia e parte do sub-texto montados, mas falta prática, falta observar a tensão muscular, a precisão dos movimentos, a emoção. Vou interpretar algo que me emociona de verdade, isso deve contribuir.
O fim de semana passou rápido... já estou na segunda-feira. Vai dormir, Elisa. Mas antes preciso colocar uma imagem do olhar mais alma que já vi em uma representação artística: nunca me canso dos olhos da suposta Suzon, desse Manet chamado Un bar aux Folies-Bergère.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

da História da Mímica

Encontrei esse pequeno artigo na internet sobre a história da mímica (ou pantomima, a mímica clássica), de Hugo Oskar. Como a minha professora havia pedido que fizéssemos uma pesquisa a respeito dessa história, deixo aqui também uma parte da minha. A mímica é realmente o maior desafio da expressividade do corpo.



*História da Mímica*

Em 1979 fomos convidados para o VIII Festival de Bonecos, em Petrópolis-RJ. Apresentei uma performance que demonstrava o trabalho relacionando "mímica e objetos animados". A produção do programa "Bambalalão" (TV Cultura), interessada por nosso trabalho, nos convidou para criar 100 quadros de mímica. 
Sempre que se fala em mímica, vêem as seguintes perguntas: Teatro? Dança? Brincadeira? Mímica é tudo isto e, principalmente, é Arte.
O conceito de Mímica provém da Sicília: assim se denominavam as apresentações das farsas camponesas e burlescas. Recebeu a sua forma definitiva pelo siracusano Sôfron, por volta do ano 430 a.C. Suas criações são homens no sentido mais amplo da mimesis, feras humanizadas. Sôfron é o criador dos antepassados mais remotos do enredo das peças de Shakespeare, "O Sonho de uma Noite de Verão" em uma de suas obras (conservado em fragmento) faz com que o ator que representa o burro fale do jeito que comia fenos e folhas.
O mímico é como um fio que conduz, sem interrupções, desde a Pré-História até a Idade Média, passando por Roma, Bizâncio e chegando junto com os teatros moderno e contemporâneo.
Voltemos ao passado e vamos ver o que pensavam os povos primitivos: devido às mudanças de climas, normalmente os povos eram nômades, tinham que viajar de um lugar a outro e procurar comida para se manterem vivos. O teatro (falo de teatro como um todo incluindo a mímica) dos povos primitivos conserva suas raízes no longo subsolo dos impulsos vitais da origem das misteriosas forças da magia, o conjuro à transmutação vinculada com a caça dos povos nômades da era paleolítica, as danças das colheitas e fertilidade; dos primeiros semeadores e agricultores, os ritos da iniciação do totenismo, do xamanismo, do culto aos deuses, a forma e conteúdo da expressão teatral, condicionado pelas necessidades vitais e as crenças religiosas. Delas se derivam as forças elementares que convertem o homem a um médium, que o capacitam para se elevar por cima de si mesmo e de seus colegas da tribo. 
O homem tem personificado as forças naturais, tem convertido em seres viventes o sol e a lua, o vento e o mar. Seres que disputam, lutam e batalham entre si, e podem ser influenciados em proveito do homem mediante o sacrifício, a adoração cerimonial e a dança.
As fontes pré-históricas populares, folclóricas, assim como datas da História das religiões, oferecem um material abundante de danças culturais e festejos das mais diversas informações do início do Teatro. Os ritos da fertilidade com os índios cherokees (EUA), acompanham hoje a semeação e colheita do milho, encontram sua correspondência nos festejos musicais e pantomímicos dos japoneses em honra ao arroz. O teatro primitivo se serve dos meios extras corporais próprios da arte mais desenvolvida, máscaras e vestuários, acessórios, decorações e orquestra foram utilizadas, logicamente em forma mais simples.
Em nossos dias é possível encontrar o teatro primitivo em três manifestações: nos povos relativamente isolados que vivem em um estado primitivo e que, em suas representações mímico-mágicas, se aproximam a uma hipotética condição originária da humanidade; nos gravados sobre madeira e ossos e, por último, nos inumeráveis tipos de costumes populares e de danças, mímicas e folclore, em diversas regiões da terra.
A luta dos mímicos pelos caminhos solitários da pantomima é um exemplo do teatro intemporal e, com isto, se abrem as portas que nos conduzem a todos os povos em todos os tempos: danças das culturas primitivas à pantomima das evoluídas culturas asiáticas; mímica dos antigos até a Commedia dell’ Arte.
A habilidade do mímico consiste em criar a ilusão do tempo. O corpo é convertido em seu instrumento, que substitui uma orquestra: a expressão do som mais pessoal o transforma em uma expressão universal. O mímico foi o único ator que não teve preconceito com as mulheres, portanto, desde o começo, em suas viagens, se fazia acompanhar por dançarinas, bufões, julgares, mágicos, etc.
As fontes pré-históricas, populares, folclóricas, assim como datas da história das religiões oferecem um material abundante, danças culturais e festejos das mais diversas informações do início do teatro.
No princípio foi a crença aos deuses, o desejo do homem por assegurar seu favor e sua ajuda.
Os caçadores do período glacial se reuniam na gruta de Montespam em torno de uma estátua de argila coberta com pele de urso, e eles se fantasiavam de ursos em ritual mímico-mágico, agrediam a estátua até cair simulando a sua morte, acreditando no êxito da caça do urso.
A paleolítica dança do urso das cavernas Francesas de Montespam ou de Lescoux corresponde a festas dos troféus do urso da Ainu no Japão pré-histórico, e ainda se repete em algumas tribo da Índia e América do Norte, nos bosques africanos, na dança dos búfalos feitos pelos índios americanos, nas danças Australianas de Corroboru, nas pantomimas do canguru, do Emu e da foca nas mais diversas tribo indígenas.
Normalmente as grandes escolas de mímica são encontradas na Europa: são elas que marcam a linha de comportamento do público interessado em assistir a este tipo de representação hoje. As apresentações dos mímicos têm sido elitisadas, quando sua trajetória sempre foi popular, como na Grécia e Roma antigas e na Idade Média, sempre com uma mentalidade nômade de viajar por todos os cantos do mundo.
Para se tornar um mímico profissional precisa-se de muito esforço, perseverança, disciplina, estudo corporal, passando por vários estágios, aprendendo a gramática do mímico, história do teatro, história das artes, física, maquiagem, dança, anatomia e outras matérias.
Existem diversos exercícios da gramática da mímica que são imprescindíveis: as caminhadas, de frente e de perfil, como Carlitos; puxada de cordas, horizontal e vertical; posições das mãos em referências aos objetos; mãos apoiadas em um vidro; luta contra o vento. São alguns dos exercícios que o mímico deve praticar diariamente para poder levar ao palco uma apresentação de agrado para todo tipo de público.
Quando em seu estudo: nascimento, amadurecimento, velhice e morte, apresentadas em seqüência como no cinema, em poucos minutos através da vida de um homem, chega com força intensiva da expressão do drama primordial, trata-se da arte da identificação do homem com a natureza, com os elementos, que ficam perto de nós.
A habilidade do mímico consiste em criar a ilusão do tempo: o corpo é convertido em seu instrumento, que substitui uma orquestra, a expressão do som mais pessoal a transformar-se em uma expressão universal.
Hoje os “mimos” tem estilos decorrentes de escolas européias, como Marceal Marceux e Entiel Decraux, na França, e escolas da Polônia e Inglaterra. O trabalho da maioria das escolas é baseado no folclore oriental e no mundo antigo, só que estilizado esteticamente. Nós, mímicos latino-americanos, devemos procurar nossas raízes que são ricas em criatividade: Antonio da Nóbrega, do teatro Brincante, tem um trabalho riquíssimo com referência a este tema.
Muitas pessoas acreditam que pelo fato de os mímicos maquiarem o rosto de branco ele tem a obrigação de fazer palhaçadas, mas existe uma diferença muito grande. A finalidade do mímico no palco não é fazer o público rir às gargalhadas, mas sim mostrar a vida de forma alegre, simpática e crítica.

Nota 1: Hugo Oskar é mímico, marionetista e artista plástico. Atualmente é diretor do grupo de Teatro de Animação Metamorfaces. Para saber mais sobre o grupo acesse:http://www.cooperativadeteatro.com.br/nucleos/metamorfaces.htm

Nota 2: O mímico da foto é Marcel Marceau, um mímico francês considerado por muitos o maior do século XX. Teve muito êxito no período pós-guerra.

domingo, 3 de abril de 2011

De apanhares e olhares

O sábado começou cheio... claro. Acordei com o despertador, pronta para ir ao Hermes Pardini e desfilar pra moça do atendimento o meu arsenal de pedidos de exames médicos, bem cedinho. De pálpebras inchadas e vestido, fui pedir à querida mamãe o cartão de ônibus, quando ela me fez ver o óbvio: não era uma boa ideia tirar mililitros de sangue no dia da semana em que eu faria mais exercícios físicos! Ora, mais uma vez a falta de talento para as coisas práticas de my life. Como não percebi o contrasenso, me explica?! Coloquei de volta o pijama e me deitei. Outro erro.
Sou uma moça prendada que ajuda em casa, e só me lembrei disso tomando café, às 9.30, quando fui perguntada sobre quem faria o supermercado. Eu, né? Rachei com o carro pro BH Supermercados, porque se ia gastar dinheiro, que não fosse com aquele supermercado careiro da dona Ana Maria Braga. Nunca... nunca fiz uma compra tão rápida, e mesmo assim me atrasei para pegar o ônibus pro SESC. Nem vou contar sobre o hilariante episódio da fila do caixa imensa e das pesagens de frutas que esqueci de fazer, deixando todo mundo atrás de mim na fila beeeeem zangado... coisas. Coisas acontecem.
Ainda bem que a aula de História do Teatro havia demorado a começar. O professor Roberto fez com a gente uma leitura dramática de Medéia durante as duas aulas, e descobri as características críticas da obra: mais que uma ode aos deuses (muito mais), a peça é uma crítica à posição da mulher no clássico mundo grego, mundo no qual uma mulher poderia ser tomada e arremessada à própria sorte com grande facilidade. Uma escrava doméstica, uma esquenta leito (ou, pra ser clássica, esquenta tálamo). Medéia é entendível, é passível de empatia, mesmo sendo a bruxa que matou os próprios filhos. Não me mordam, macacos leitores. Leiamos todos Medéia, não vejamos os tais filmes. Nao nos enganemos: Medéia foi mais mulher que feiticeira, mais humana que sobrenatural, mais paixões que frieza moral. Não, acho que não existe frieza moral, existe?
E então, vamos desgrudar o bumbum da carteira, vestir legging preta e ir pra aula de Improvisação? Não antes do lanche, porque afinal é a aula do Didi. Apenas uma hora de aula, na sala dos espelhos... fiquei decepcionada: uma hora, pouquissimo tempo oras!
Primeira meia hora: Aquecimento com tortura - ops, - posições de esforço muscular e respiração, apenas nos primeiros minutinhos. Depois, o início da primeira cena que improvisação que faremos individualmente: Didi nos pediu que nos posicionássemos frente ao espelho e experimentássemos movimentos nos quais estivéssemos apanhando de uma pessoa invisível. Prestando atenção em detalhes como precisão dos movimentos, tensionamento dos músculos e expressões corporais em geral, deveríamos escolher uma sequência de três desses movimentos para serem encenados um após o outro, e memorizá-la. Não foi legal essa meia hora, te digo. Ficávamos lá, caindo e nos debatendo como uns malucos, buscando expressões no espelho para sensações das dores que não sentíamos... que falta me fez um subtexto. Subtexto, pra quem não sabe, é a "historinha" que o ator/atriz cria na sua cabeça, o passado/presente/futuro da personagem que está interpretando. Esse subtexto não é para ser compartilhado, sua função principal é convencer o ator da veracidade das paixões da personagem, é criar uma intimidade maior entre essas duas instâncias. O subtexto é um dos artifícios do improvisador na busca pela verossimilhança, pela veracidade da sua vivência teatral. Chorar ou rir sem motivo não é fácil, e provavelmente não serão choro e riso verdadeiros o suficiente para comover o espectador. Porém, o choro causado por um suposto trauma que a personagem carregue, ou o riso de uma personagem com tendências esquizofrênicas são emoções mais ricas, que convencem, confundem, incomodam. Isso me lembra as personagens planas em oposição às esféricas, na literatura. Personagens planas são aquelas que só têm uma face: são boas ou más, heróicas ou vilaníacas. As esféricas são aquelas que mais se aproximam da vivência humana do mundo: são plurilaterais, têm um comportamento psicológico complexo e, por isso, mais interessante. Enfim, personas.
Voltando à cena do crime: sala dos espelhos, Elisa se jogando no chão e simulando movimentos brutos. Não, simular não era o suficiente, parecia dizer o Didi encostado ao batente da porta, gritando. "Não estou vendo verdade, não estou vendo corpo, mais dez minutos!" Resolvi escolher logo uma sequência de três movimentos e focar neles, em lugar de ficar experimentando um monte. Repetição, repetição, repetição. Tudo ali é repetição. Chute no estômago, espanto, envergar-se para frente, olhar pra cima, tapa na face esquerda, queda ajoelhada (joelhos, ai!), limpa a boca, chute nas costas, queda de quatro (joelhos, ai!). Não tá bom.
Agressor bem próximo, para poder dar o chute com o joelho no abdômem. Desconfiança seguida de chute. Salto pra trás com envergadura pra frente, dobrando-me sobre o estômago. Olhar surpreso que se levanta, sem sair da posição envergada ("Postura! Precisão no movimento! Não é uma donzela desmaiando não!"), olha pra cima sem entender, face esquerda mais alta e mão direita na altura do estômago. Um tapa que vem do alto, na face esquerda, jogando o rosto pra baixo. Com a força do golpe, uma queda com o joelho esquerdo direto no chão (joelhos, ai!), mas a perna direita tenta manter o equilíbrio, pé no chão. O dorso da mão direita passa lentamente sobre a bochecha esquerda: limparia sangue? Nesse momento, um pé nas costas, e o impacto do outro joelho no chão (joelhos, ai!). Faltam as mãos e... pronto, de quatro. Repetição, repetição, repetição. Não, meu joelho direito não tá legal não... =(
No fim da primeira meia hora, o Didi nos chama para incluir esse exercício numa cena improvisada. Nos recolhemos para um canto da sala e ele coloca uma cadeira bem no meio. Explica que a cena é simples, são alguns movimentos (incluindo nossa sequência memorizada) e quatro pequenas falas. Ele encena o que será a base para a improvisação que todos nós teremos que fazer dentro de duas semanas: Abre a porta, entra temeroso e se senta na cadeira. Dá as quatro falas: "Bruno. 18 anos. Sim, eu sou casado. Eu amo a minha mulher." A partir daí, a sequência de agressões, e a repetição dessa cena em progressão dramática, ou seja, cada vez mais impingindo dor, sofrimento, delírio, choro, angústia, demência ou o que mais a gente queira colocar na cena, para elevar a tensão. Simples, né? Não. Ferrou. O subtexto é por nossa conta também, e podemos incrementar com outros movimentos que a gente pense serem necessários.
Não adianta tentar separar as coisas: pensei nisso pelo resto da tarde de sábado e estou pensando até agora. Acho que já tenho o subtexto quase pronto, mas sou daquelas perfeccionistas chatas que fica ensaiando mental e corporalmente o trem. Alguém aí se dispõe a me bater, pra eu fazer as marcações de onde os golpes pegam, onde devo proteger com a mão, que músculos tensionar e que caretas fazer? Candidatos e candidatas, deixem nome e telefone. (Brincadeira. Ou nao.)
Assim se passou a segunda meia hora: explicações e eu sendo pega para demonstração. Ô talento, cadê você nessas horas de ser surpreendida com as calças na mão?!
Em seguidíssima, duas aulas de mímica. Os professores estavam mesmo decididos a nos dar um chá de repetição e monotonía ontem. Depois de duas horas de leitura de Medéia e mais uma hora em uma mesma prática corporal, mais duas aulas de... observação da própria imagem e da imagem dos outros. A professora de mímica colocou uma música e colocou todo mundo de frente pro espelho. De novo, sim senhora. Cada um devia olhar para a sua imagem no espelho durante loooongos minutos, tentando distanciar-se de si mesmo, pensar na sua imagem como se fosse a de um desconhecido que andasse pela rua. Já tentou? Difícil pacas. Só no fim da aula eu ia perceber que a verdade é que aquele era um exercício para não ser conseguido. É impossível olhar para mim sem ver todos os juízos que já fiz de mim mesma, sem contar as impressões que as outras pessoas já afirmaram ter a respeito da minha aparência. Fiquei com a impressão de que esse é dos exercícios de meditação mais exigentes que há. E eu não sei meditar. Primeiro, os detalhes chamam a atenção: sobrancelha que fiz torta, olheiras das noites passadas, manchas de sol, excesso de peso, costas curvadas, cabelo com frizz (deve ser o shampoo Pantene, uso demais). Depois, o ridículo, sempre ele: "Isso não faz sentido. O que estou fazendo aqui? Isso me ensina o que? Sou inteligente, sei que é impossível me distanciar blábláblá...". Impossível calar o pensamento de Elisa, ou melhor, impossível calar o pensamento e ponto final.
Segunda etapa: a exposição à chacota alheia. Ops, quer dizer, o momento de compartilhar impressões. Né?! Tem que ter. A ideia era ficar de frente para todos os outros e de costas para a parede de espelhos. De pé, contar aos outros o que viu sobre você, o que sua imagem diz. Os outros, sentados à sua frente, devem concordar ou não com as suas impressões, e eles também julgarão a sua aparência. Incômodo? Você ainda não viu nada. Vergonha alheia? O que é vergonha perto daquilo ali?
Fui a primeira, melhor é cortar o mal pela raiz, arrancar o bandeide de uma vez só, levar na cara sem ter tido tempo de se proteger. "Minha imagem me diz de alguém orgulhoso e preocupado". Como os outros ainda estavam tímidos, ouvi coisas como "simpática", "carinhosa", "traços delicados", "dedicada". A partir daí, foram todos misturando as impressões de imagem com demais impressões da personalidade de cada um. Aproveitou-se para "falar na cara"  e para "puxar o saco". Alguns lá na frente aproveitaram para falar de como são (ou acham que são), justificando sua aparência, seus olhares, suas "primeiras impressões" acerca uns dos outros. Bastante desvirtuado, o exercício me mostrou muito nesse "não-funcionar" dele: não sabemos nada de imagem, não sabemos nada de auto-imagem. Nosso espelho pessoal é borrado, viramos as costas para nossos traços mais óbvios. Preferimos nos ver nos olhos dos outros, através de simpatias e antipatias. Empatia mesmo, aquela que nos faz entrar de verdade na existência do outro... difícil. Caminhamos sobre uma superfície muito frágil de estereótipos e observações pouco interessadas. Queremos mesmo conhecer os outros? Nos conhecer? Eu não sei não. Pensando no ator/atriz: ele não quer representar um outro no palco, ele quer SER um outro (como já falei numa das aulas passadas). Para ser um outro, teremos que ultrapassar essas barreiras do nosso olhar viciado e superficial. Teremos que ENXERGAR os outros, para saber como atuar. Teremos que ENXERGAR a nós mesmos, para saber até onde poderemos ir nessa mímese.
Dever de casa: observar e relatar a maneira como as pessoas reagem a nós, à nossa aparência, mas ruas. Observar gestos e falas, olhos e silêncios constrangedores. Qual a impressão que deixo, que passo? Também pra isso procuro contribuiçoes! Deixe seu recado sobre a minha imagem apos o sinal! =D

Um tiquinho de pratica da primeira posicao dos pes e das maos na mimica classica... ao menos pude estreiar minhas sapatilhas de ballet pretas (comprei na Ballet Branca de Neve, na rua da Bahia. Quem quiser...). Fim das aulas, tinha chovido a tarde quase toda, ne? Ou apenas meia hora, nao sei. Muito dificil prestar atencao no tempo la fora, quando estao me incitando a focar bem aqui dentro de E(u)lisa. Saida em carreira, fui ser filha de Deus e namorar um pouquinho no sabado a noite! Mas nao sem olhar os olhos se cruzando pelo meio do caminho.

*Sinal: BEEEEEEP.