domingo, 10 de abril de 2011

Do olhar

Foi um sábado mais tranquilo no teatro, talvez para compensar meus desgastes psicológicos anteriores! Este fim de semana estreei dando aulas de espanhol no curso de idiomas do Coltec, e estava bastante ansiosa no sábado de manhã. A partir de agora a dona Elisa dá aulas aos sábados, das nove horas da manhã ao meio-dia, precisando estar no SESC à uma da tarde. Não vou dizer que não dá, mas almoçar já não me pertence mais. Terei que traçar uma estratégia, porque a gastrite tá aí e não aceita muito esse papo de pipoca Aritana no almoço. Enfim.
As aulas de História do Teatro passaram lentamente. Confesso que não gostei da ideia do professor de ler a peça inteira conosco, apesar de saber que é necessário conhecer e praticar oratória. Apesar dessa parte maçante do dia, me animei com os planos que o professor tem para a matéria. Avançaremos para as farsas da Idade Média, mas nos deteremos mesmo no Renascimento e... VIVA! Shakespeare!
Estava ansiosa e pronta para perguntar ao professor se ele se deteria ou não nas obras do grande escritor da alma humana. Sim, eu sei que nenhum professor de História do Teatro em sã consciência desprezaria Shakespeare, mas precisava confirmar. Sou apaixonada pelo legado desse autor, ele me emociona desde a oitava série, quando descobri Otelo através de um professor de Português, o Paulo César. Quantas vezes eu dramatizei Desdêmona em frente ao espelho! Já naquela época, morrer sendo inocente em uma peça de teatro me parecia o supra-sumo da tragédia, a glória, o ponto mais alto da auto-vitimação. Fala sério, tenho vocação pra mártir.
Intervalo, hora de legging e sapatilha. Do vestiário para a sala de espelhos, me deparo com todo mundo já deitado no chão. Teatro, meu caro. Teatro. Me deito, e é engraçado como me passou pela cabeça o questionamento de sempre, aquele que me acompanha desde a matrícula: "Por que estou me sujeitando a isso? O que espero encontrar aqui?". A Ana Luiza deitada do meu lado, desconcentração à vista. Eu disse que ia falar dela aqui, então ela já está avisada. Lagoa-santense bacana que gosta de cachorros, na luta pra entrar no curso de Artes Cênicas. Oi Ana Luiza! Levanta essa cabeça do chão e senta pra conversar comigo enquanto a professora não chega! Eu estou extremamente elétrica por causa da manhã tumultuada, desconcentração à vista [2].
Começamos com um exercício em duplas, de observação do outro. Sim, a Nalu era a minha parceira, e devíamos ficar sentadas no chão, uma em frente à outra, nos olhando. Mais tarde a professora explicaria que isso é parte das práticas mais básicas do teatro: um ator sempre olha nos olhos do outro em cena, para manter uma conexão. "Vocês são parceiros em cena: uma dupla, um trio, um grupo, uma companhia. Para desarmar seu companheiro de cena totalmente, basta baixar o olhar. A conexão desaparece, não há mais como comunicar-se com os olhos, as personagens se perdem".
Impossível manter os olhos nos olhos da Nalu. Ríamos feito duas criancinhas bobas, mesmo quando passamos ao exercício seguinte: uma se movia, dando atenção às articulações, enquanto a outra devia repetir os gestos. Tentei, tentei focar. Mas desisti.
Na roda que se formou depois para contar as experiências, várias pessoas falando da dificuldade inicial de manter o olho-no-olho, dificuldade logo superada. E eu lá, esperando pra admitir o meu fracasso. A professora pediu que primeiro cada um fizesse uma análise de seu companheiro, do comportamento dele no exercício. Depois, como muitos falassem da dificuldade do olhar, ela pediu que explicássemos por que era difícil (ou fácil) olhar nos olhos do outro. Opiniões interessantes, principalmente a respeito da necessidade de "resposta" do olhar do companheiro: os dois devem estar comprometidos, focados, a intenção de "fazer certo" deveria se sobrepor a tudo. Houve quem dissesse que não conseguir manter o olhar do outro fosse uma questão de falta de comprometimento, ou até de responsabilidade. Obviamente, isso me irritou. Sou muito comprometida com tudo o que faço, inclusive com as aulas de teatro. Por isso, algo além me impediu de olhar nos olhos da Nalu.
Enfim, vamos à auto-crítica que expus (ou acho que expus): tenho medo dos olhos. Como disse uma das alunas, os olhos revelam coisas demais, e saber que há alguém empenhado em nada mais que olhar nos meus olhos por vários minutos me constrange, me irrita até. Não gosto. Todos têm coisas a esconder, todos se sentem impelidos a desviar o olhar quando mentem, por exemplo. Para distrair-me da situação incômoda de ser descaradamente observada, eu ri, ela riu. Eu brinquei, ela brincou. Eu fingi que não era importante, ela fez o mesmo. Porque é tudo ação e reação, o olhar exige reciprocidade.
O olhar começa relações, ele é o flerte inicial. E não é à toa. É possível sondar almas pelo olhar, sondar desejos e os sentimentos mais inconfessáveis. Que me olhem nos olhos quando eu estiver segura de que já escondi tudo o que não deve ser visto numa gaveta bem escura e bem lá no fundo. Não me olhe nos olhos quando estiver desarmada, numa aula de teatro. Não me olhe nos olhos quando estiver apaixonada ou com inveja. Não me olhe nos olhos quando eu estiver com sono, porque eles ficam pequenos, cheios de rugas e com olheiras enormes de moldura. Credo.
Falemos então do ator: ele precisa olhar nos olhos. Logo, ele precisa ter olhos de livro aberto, deve ser uma alma absolutamente legível? Não necessariamente. Como todo ser humano, o ator tem seus segredos, e é bom que os tenha. Mas algo com relação ao olhar do ator deve ser diferente: sua alma deve deslocar-se. Ele deve saber domar os olhos de modo que exprima menos da sua própria alma, e mais da alma da personagem que tem o dever de interpretar com VEROSSIMILHANÇA, com VERDADE. É necessário interpretar com voz, braços, pernas, boca, mas principalmente com os olhos. Emprestar por algumas horas ou dias ou meses as janelas da sua alma (e talvez parte da sua própria alma) ao exercício de uma outra existência. Pensando assim, a interpretação seria um exercício de desapego de si, com inúmeras possibilidades de ser verdadeiramente outro. Seu espectador poderá ver no ator um outro, e identificar-se com ele, julgá-lo, dar seu veredicto moral, e desta forma estará refletindo sobre si mesmo.
Será que a Elisa poderá ser uma boa atriz, tendo tanto a esconder? Talvez. Talvez um mundo interior rico seja boa e variada matéria para a composição de diferentes personagens, ou talvez apenas me confunda. Talvez. Como dever de casa, continuarei a observação dos olhares nas ruas, tentado desvendar os "porquês" e os "comos" dos olhares.
Reflexões sobre alma e olhar suspensas por enquanto. É hora de ensaio de uma coreografia divertida com a professora, que me lembrou muito aqueles musicais da Broadway. Todo o grupo, ao som das músicas bonitinhas da mímica, tentando chegar perto da tal sincronia. Como é difícil! É suado esse negócio de coordenar a dança de um grupo grande de pessoas. Um monte de pezinhos tentando marcar posições, acelerar, marcar posição das mãos (um negócio bem ballet)... falar ajuda: um, dois, três quatro, cinco seis, sete, oito. A bagunça começou a tomar forma.
Iremos incluindo novos movimentos nessa coreografia durante o semestre, que podem vir no início, no fim ou entre os movimentos já dados. Onde está meu curso de memorização?
Enfim, suadinha leve, saldo negativo na panturrilha esquerda (mas ela já andava meio capenga desde sexta-feira, na musculação). Ná próxima aula de mímica, que acontecerá só depois do feriado, deveremos apresentar individualmente uma sequência de movimentos da mímica clássica, podendo levar figurino e escolher a música. Ainda não pensei no que vou fazer... já que a base dos movimentos é a mesma pra todos nós, terei que ser criativa! Talvez eu fique bem com aquela maquiagem branca de mímica, a la Marcel Marceau. hehe
Tô mesmo preocupada é com a cena que o Didi propôs para a aula de Improvisação. Lembra que vou ter que fazer uma cena dramática e de tensão crescente na próxima aula? Já tenho a ideia e parte do sub-texto montados, mas falta prática, falta observar a tensão muscular, a precisão dos movimentos, a emoção. Vou interpretar algo que me emociona de verdade, isso deve contribuir.
O fim de semana passou rápido... já estou na segunda-feira. Vai dormir, Elisa. Mas antes preciso colocar uma imagem do olhar mais alma que já vi em uma representação artística: nunca me canso dos olhos da suposta Suzon, desse Manet chamado Un bar aux Folies-Bergère.


Nenhum comentário:

Postar um comentário