quarta-feira, 18 de maio de 2011

Da primeira cena

Daí que eu sumi. Pois é, acontece. Comigo, muitas vezes... eu quase que mais sumo que apareço. Faltei ao teatro uns dias, fui um dia e não contei aqui. Acontece. Desde o início eu sabia que a parte mais difícil de manter um blog seria ter que lidar com essa constância, essa rotina que ele pede. Só que eu decidi que o meu blog não vai pedir nada, nem rotina nem constância. Vai pedir nada, hein? Senão eu canso e vou embora.
Só que eu preciso contar que uma das aulas foi a melhor aula da vida até hoje. Foi a aula em que encenei o exercício de impro. Foda, foda, foda. Senta que lá vem história.
Eu já tinha explicado aqui como seria. O Didi deu a base de uma cena e teríamos que improvisar em cima, cada um de uma vez. O texto que ele deu: teríamos que sentar numa cadeira, dar quatro falas ("Meu nome é fulano, tenho tantos anos, sou casado, amo minha mulher), e encenar que estávamos apanhando. Nessa parte teríamos que usar as três posições de golpes que tinhamos treinado horrores  e memorizado em aulas anteriores. Cada um teria liberdade para substituir e inovar nos elementos cênicos, criando para si o subtexto da cena.
Lá fui eu: quem poderia ser essa mulher que estava fechada em uma sala, na companhia de uma cadeira e de um agressor invisível a todos? Pensei primeiro em marginais: uma criminosa, uma prostituta, uma viciada.... mas não consegui encaixar as falas num contexto interessante. Uma estudante torturada na ditadura? Tema batido, não gostei. E por que raios ela estaria apanhando por ser casada, em plena ditadura?! Hum... talvez não por ser casada, mas por forjar uma identidade, uma identidade social adequada, tradicional...
Não. Fuçando na internet enquanto procurava imagens para preparar as minhas aulas, pensei nas muçulmanas e no signficado que o casamento teria pra elas, de acordo com a minha visão ocidental e estereotipada do negócio. Zakia, não me mate, mas além de ter optado por essa personagem, ainda dei seu nome pra ela! hehehe
Minha Zakia foi tomando forma: Ela era jovem e casada, e afirmava com segurança amar seu marido. SE bem que não: melhor explicitar na fala de uma vez o que é que seria o sentimento base da cena: a submissão. A Zakia seria uma mulher sendo questionada a respeito de uma suposta traição ao marido, já sendo condenada pelos murros e safanões. Daí muita gente vai dizer: pô, mas escenificar a submissão feminina não seria tão clichê quanto a tal ideia da tortura na ditadura?
Não, não seria. Por motivos muito, muito pessoais. Optando por essa jovem muçulmana casada eu estaria optando também por colocar a Elisa em cena: a Elisa com suas submissões, com seu conflitante lugar social, a Elisa e a constante não aceitação do seu lugar e, principalmente, a não aceitação dela mesma. Não vou dar mais elementos de mim, pra quem sabe ler rima é metáfora e pingo é borboleta voando sobre a letra i. O fato é: se é pra ter um monte de psicose social, que elas ao menos sejam úteis pralguma coisa! Sem contar que ao representar uma personagem contida e ansiosa por corresponder a uma imagem (a imagem de mulher casta que nunca trairia o marido), poderia contar com o próprio nervosismo de Elisa pra dar veracidade à cena.  As mãos tremendo, os dedos das duas mãos se entrelaçando nervosamente, o andar vacilante, a cara de medo. Eu usaria tudo. Era medo do público ou do agressor invisível? Poderia ser uma fusão dos dois.
E foi, viu, vou te contar. Música de câmara tocando no aparelho que o Didi levou, e as cortinas vermelhas da sala fechadas, criando uma meia luz. Comecei e tudo foi indo como eu havia previsto. Até sair do meu controle. Após perceber o subtexto da cena, o Didi passou a me dirigir, gritando o que eu devia fazer. Sentava na cadeira, dava o texto, rolava no chão apanhando. Me sentava de novo, novamente o texto, novamente a surra. Mais texto, dessa vez no chão. Mais surra. Um crescente de drama, de tensão... se não fossem rir da minha cara eu diria que a Elisa saiu de cena, mas vocês vão. Então, taí, pode rir! Elisa foi se perdendo, de um jeito absurdo e meio desajeitado, ela deu lugar pela primeira vez pra que a Zakia saísse do mundo mental que habita pra existir entre nós. Foda, foda.
Não digo que foi foda a cena em si. Digo que foi foda passar por isso... e até agora é apenas com essa palavra que eu tô conseguindo descrever o que aconteceu. E olha... já contei essa história para algumas pessoas, e todo mundo que me conhece me olha meio surpreso (sim, já contei pra desconhecidos, porque eu faço isso). Por que meio surpreso? Porque a Elisa não fala palavrão. Ao menos não falava. Fazer o quê? Será que tem um jeito polido de dizer que naquela cena eu encontrei uma coisa que tô procurando a tempos? Será que em português castizo eu consigo dizer o tanto que ando precisando sair de mim um pouquinho? Esquecer da Elisa? Não é fuga, não me entenda mal. Acho até que desse jeito me encontro um pouco mais. Foda.
Terminei a cena cansada, garganta rachando, suada, chorando. Terminei meio manca, com um monte de roxos e uns arranhões no peito dos pés. Rastejar é preciso, e usar só sapatilhas durante uma semana inteira também foi!
Desde então, teve aula de história do teatro e de mímica. Estou lendo "A comédia dos erros" do Shakespeare, estou buscando informações e leituras teóricas a respeito do teatro moderno e contemporâneo... estou fazendo coisas. Mas não consigo esquecer a sensação! Sou ridiculamente clichê, ignorem. Tentando resistir a essa vontade de mudar de rumo, de seguir seguindo, de abandonar meus planos e ir reto pra esse outro lugar que eu descobri. Elisa, pelamordedeus, acorda.