quarta-feira, 18 de maio de 2011

Da primeira cena

Daí que eu sumi. Pois é, acontece. Comigo, muitas vezes... eu quase que mais sumo que apareço. Faltei ao teatro uns dias, fui um dia e não contei aqui. Acontece. Desde o início eu sabia que a parte mais difícil de manter um blog seria ter que lidar com essa constância, essa rotina que ele pede. Só que eu decidi que o meu blog não vai pedir nada, nem rotina nem constância. Vai pedir nada, hein? Senão eu canso e vou embora.
Só que eu preciso contar que uma das aulas foi a melhor aula da vida até hoje. Foi a aula em que encenei o exercício de impro. Foda, foda, foda. Senta que lá vem história.
Eu já tinha explicado aqui como seria. O Didi deu a base de uma cena e teríamos que improvisar em cima, cada um de uma vez. O texto que ele deu: teríamos que sentar numa cadeira, dar quatro falas ("Meu nome é fulano, tenho tantos anos, sou casado, amo minha mulher), e encenar que estávamos apanhando. Nessa parte teríamos que usar as três posições de golpes que tinhamos treinado horrores  e memorizado em aulas anteriores. Cada um teria liberdade para substituir e inovar nos elementos cênicos, criando para si o subtexto da cena.
Lá fui eu: quem poderia ser essa mulher que estava fechada em uma sala, na companhia de uma cadeira e de um agressor invisível a todos? Pensei primeiro em marginais: uma criminosa, uma prostituta, uma viciada.... mas não consegui encaixar as falas num contexto interessante. Uma estudante torturada na ditadura? Tema batido, não gostei. E por que raios ela estaria apanhando por ser casada, em plena ditadura?! Hum... talvez não por ser casada, mas por forjar uma identidade, uma identidade social adequada, tradicional...
Não. Fuçando na internet enquanto procurava imagens para preparar as minhas aulas, pensei nas muçulmanas e no signficado que o casamento teria pra elas, de acordo com a minha visão ocidental e estereotipada do negócio. Zakia, não me mate, mas além de ter optado por essa personagem, ainda dei seu nome pra ela! hehehe
Minha Zakia foi tomando forma: Ela era jovem e casada, e afirmava com segurança amar seu marido. SE bem que não: melhor explicitar na fala de uma vez o que é que seria o sentimento base da cena: a submissão. A Zakia seria uma mulher sendo questionada a respeito de uma suposta traição ao marido, já sendo condenada pelos murros e safanões. Daí muita gente vai dizer: pô, mas escenificar a submissão feminina não seria tão clichê quanto a tal ideia da tortura na ditadura?
Não, não seria. Por motivos muito, muito pessoais. Optando por essa jovem muçulmana casada eu estaria optando também por colocar a Elisa em cena: a Elisa com suas submissões, com seu conflitante lugar social, a Elisa e a constante não aceitação do seu lugar e, principalmente, a não aceitação dela mesma. Não vou dar mais elementos de mim, pra quem sabe ler rima é metáfora e pingo é borboleta voando sobre a letra i. O fato é: se é pra ter um monte de psicose social, que elas ao menos sejam úteis pralguma coisa! Sem contar que ao representar uma personagem contida e ansiosa por corresponder a uma imagem (a imagem de mulher casta que nunca trairia o marido), poderia contar com o próprio nervosismo de Elisa pra dar veracidade à cena.  As mãos tremendo, os dedos das duas mãos se entrelaçando nervosamente, o andar vacilante, a cara de medo. Eu usaria tudo. Era medo do público ou do agressor invisível? Poderia ser uma fusão dos dois.
E foi, viu, vou te contar. Música de câmara tocando no aparelho que o Didi levou, e as cortinas vermelhas da sala fechadas, criando uma meia luz. Comecei e tudo foi indo como eu havia previsto. Até sair do meu controle. Após perceber o subtexto da cena, o Didi passou a me dirigir, gritando o que eu devia fazer. Sentava na cadeira, dava o texto, rolava no chão apanhando. Me sentava de novo, novamente o texto, novamente a surra. Mais texto, dessa vez no chão. Mais surra. Um crescente de drama, de tensão... se não fossem rir da minha cara eu diria que a Elisa saiu de cena, mas vocês vão. Então, taí, pode rir! Elisa foi se perdendo, de um jeito absurdo e meio desajeitado, ela deu lugar pela primeira vez pra que a Zakia saísse do mundo mental que habita pra existir entre nós. Foda, foda.
Não digo que foi foda a cena em si. Digo que foi foda passar por isso... e até agora é apenas com essa palavra que eu tô conseguindo descrever o que aconteceu. E olha... já contei essa história para algumas pessoas, e todo mundo que me conhece me olha meio surpreso (sim, já contei pra desconhecidos, porque eu faço isso). Por que meio surpreso? Porque a Elisa não fala palavrão. Ao menos não falava. Fazer o quê? Será que tem um jeito polido de dizer que naquela cena eu encontrei uma coisa que tô procurando a tempos? Será que em português castizo eu consigo dizer o tanto que ando precisando sair de mim um pouquinho? Esquecer da Elisa? Não é fuga, não me entenda mal. Acho até que desse jeito me encontro um pouco mais. Foda.
Terminei a cena cansada, garganta rachando, suada, chorando. Terminei meio manca, com um monte de roxos e uns arranhões no peito dos pés. Rastejar é preciso, e usar só sapatilhas durante uma semana inteira também foi!
Desde então, teve aula de história do teatro e de mímica. Estou lendo "A comédia dos erros" do Shakespeare, estou buscando informações e leituras teóricas a respeito do teatro moderno e contemporâneo... estou fazendo coisas. Mas não consigo esquecer a sensação! Sou ridiculamente clichê, ignorem. Tentando resistir a essa vontade de mudar de rumo, de seguir seguindo, de abandonar meus planos e ir reto pra esse outro lugar que eu descobri. Elisa, pelamordedeus, acorda.








domingo, 10 de abril de 2011

Do olhar

Foi um sábado mais tranquilo no teatro, talvez para compensar meus desgastes psicológicos anteriores! Este fim de semana estreei dando aulas de espanhol no curso de idiomas do Coltec, e estava bastante ansiosa no sábado de manhã. A partir de agora a dona Elisa dá aulas aos sábados, das nove horas da manhã ao meio-dia, precisando estar no SESC à uma da tarde. Não vou dizer que não dá, mas almoçar já não me pertence mais. Terei que traçar uma estratégia, porque a gastrite tá aí e não aceita muito esse papo de pipoca Aritana no almoço. Enfim.
As aulas de História do Teatro passaram lentamente. Confesso que não gostei da ideia do professor de ler a peça inteira conosco, apesar de saber que é necessário conhecer e praticar oratória. Apesar dessa parte maçante do dia, me animei com os planos que o professor tem para a matéria. Avançaremos para as farsas da Idade Média, mas nos deteremos mesmo no Renascimento e... VIVA! Shakespeare!
Estava ansiosa e pronta para perguntar ao professor se ele se deteria ou não nas obras do grande escritor da alma humana. Sim, eu sei que nenhum professor de História do Teatro em sã consciência desprezaria Shakespeare, mas precisava confirmar. Sou apaixonada pelo legado desse autor, ele me emociona desde a oitava série, quando descobri Otelo através de um professor de Português, o Paulo César. Quantas vezes eu dramatizei Desdêmona em frente ao espelho! Já naquela época, morrer sendo inocente em uma peça de teatro me parecia o supra-sumo da tragédia, a glória, o ponto mais alto da auto-vitimação. Fala sério, tenho vocação pra mártir.
Intervalo, hora de legging e sapatilha. Do vestiário para a sala de espelhos, me deparo com todo mundo já deitado no chão. Teatro, meu caro. Teatro. Me deito, e é engraçado como me passou pela cabeça o questionamento de sempre, aquele que me acompanha desde a matrícula: "Por que estou me sujeitando a isso? O que espero encontrar aqui?". A Ana Luiza deitada do meu lado, desconcentração à vista. Eu disse que ia falar dela aqui, então ela já está avisada. Lagoa-santense bacana que gosta de cachorros, na luta pra entrar no curso de Artes Cênicas. Oi Ana Luiza! Levanta essa cabeça do chão e senta pra conversar comigo enquanto a professora não chega! Eu estou extremamente elétrica por causa da manhã tumultuada, desconcentração à vista [2].
Começamos com um exercício em duplas, de observação do outro. Sim, a Nalu era a minha parceira, e devíamos ficar sentadas no chão, uma em frente à outra, nos olhando. Mais tarde a professora explicaria que isso é parte das práticas mais básicas do teatro: um ator sempre olha nos olhos do outro em cena, para manter uma conexão. "Vocês são parceiros em cena: uma dupla, um trio, um grupo, uma companhia. Para desarmar seu companheiro de cena totalmente, basta baixar o olhar. A conexão desaparece, não há mais como comunicar-se com os olhos, as personagens se perdem".
Impossível manter os olhos nos olhos da Nalu. Ríamos feito duas criancinhas bobas, mesmo quando passamos ao exercício seguinte: uma se movia, dando atenção às articulações, enquanto a outra devia repetir os gestos. Tentei, tentei focar. Mas desisti.
Na roda que se formou depois para contar as experiências, várias pessoas falando da dificuldade inicial de manter o olho-no-olho, dificuldade logo superada. E eu lá, esperando pra admitir o meu fracasso. A professora pediu que primeiro cada um fizesse uma análise de seu companheiro, do comportamento dele no exercício. Depois, como muitos falassem da dificuldade do olhar, ela pediu que explicássemos por que era difícil (ou fácil) olhar nos olhos do outro. Opiniões interessantes, principalmente a respeito da necessidade de "resposta" do olhar do companheiro: os dois devem estar comprometidos, focados, a intenção de "fazer certo" deveria se sobrepor a tudo. Houve quem dissesse que não conseguir manter o olhar do outro fosse uma questão de falta de comprometimento, ou até de responsabilidade. Obviamente, isso me irritou. Sou muito comprometida com tudo o que faço, inclusive com as aulas de teatro. Por isso, algo além me impediu de olhar nos olhos da Nalu.
Enfim, vamos à auto-crítica que expus (ou acho que expus): tenho medo dos olhos. Como disse uma das alunas, os olhos revelam coisas demais, e saber que há alguém empenhado em nada mais que olhar nos meus olhos por vários minutos me constrange, me irrita até. Não gosto. Todos têm coisas a esconder, todos se sentem impelidos a desviar o olhar quando mentem, por exemplo. Para distrair-me da situação incômoda de ser descaradamente observada, eu ri, ela riu. Eu brinquei, ela brincou. Eu fingi que não era importante, ela fez o mesmo. Porque é tudo ação e reação, o olhar exige reciprocidade.
O olhar começa relações, ele é o flerte inicial. E não é à toa. É possível sondar almas pelo olhar, sondar desejos e os sentimentos mais inconfessáveis. Que me olhem nos olhos quando eu estiver segura de que já escondi tudo o que não deve ser visto numa gaveta bem escura e bem lá no fundo. Não me olhe nos olhos quando estiver desarmada, numa aula de teatro. Não me olhe nos olhos quando estiver apaixonada ou com inveja. Não me olhe nos olhos quando eu estiver com sono, porque eles ficam pequenos, cheios de rugas e com olheiras enormes de moldura. Credo.
Falemos então do ator: ele precisa olhar nos olhos. Logo, ele precisa ter olhos de livro aberto, deve ser uma alma absolutamente legível? Não necessariamente. Como todo ser humano, o ator tem seus segredos, e é bom que os tenha. Mas algo com relação ao olhar do ator deve ser diferente: sua alma deve deslocar-se. Ele deve saber domar os olhos de modo que exprima menos da sua própria alma, e mais da alma da personagem que tem o dever de interpretar com VEROSSIMILHANÇA, com VERDADE. É necessário interpretar com voz, braços, pernas, boca, mas principalmente com os olhos. Emprestar por algumas horas ou dias ou meses as janelas da sua alma (e talvez parte da sua própria alma) ao exercício de uma outra existência. Pensando assim, a interpretação seria um exercício de desapego de si, com inúmeras possibilidades de ser verdadeiramente outro. Seu espectador poderá ver no ator um outro, e identificar-se com ele, julgá-lo, dar seu veredicto moral, e desta forma estará refletindo sobre si mesmo.
Será que a Elisa poderá ser uma boa atriz, tendo tanto a esconder? Talvez. Talvez um mundo interior rico seja boa e variada matéria para a composição de diferentes personagens, ou talvez apenas me confunda. Talvez. Como dever de casa, continuarei a observação dos olhares nas ruas, tentado desvendar os "porquês" e os "comos" dos olhares.
Reflexões sobre alma e olhar suspensas por enquanto. É hora de ensaio de uma coreografia divertida com a professora, que me lembrou muito aqueles musicais da Broadway. Todo o grupo, ao som das músicas bonitinhas da mímica, tentando chegar perto da tal sincronia. Como é difícil! É suado esse negócio de coordenar a dança de um grupo grande de pessoas. Um monte de pezinhos tentando marcar posições, acelerar, marcar posição das mãos (um negócio bem ballet)... falar ajuda: um, dois, três quatro, cinco seis, sete, oito. A bagunça começou a tomar forma.
Iremos incluindo novos movimentos nessa coreografia durante o semestre, que podem vir no início, no fim ou entre os movimentos já dados. Onde está meu curso de memorização?
Enfim, suadinha leve, saldo negativo na panturrilha esquerda (mas ela já andava meio capenga desde sexta-feira, na musculação). Ná próxima aula de mímica, que acontecerá só depois do feriado, deveremos apresentar individualmente uma sequência de movimentos da mímica clássica, podendo levar figurino e escolher a música. Ainda não pensei no que vou fazer... já que a base dos movimentos é a mesma pra todos nós, terei que ser criativa! Talvez eu fique bem com aquela maquiagem branca de mímica, a la Marcel Marceau. hehe
Tô mesmo preocupada é com a cena que o Didi propôs para a aula de Improvisação. Lembra que vou ter que fazer uma cena dramática e de tensão crescente na próxima aula? Já tenho a ideia e parte do sub-texto montados, mas falta prática, falta observar a tensão muscular, a precisão dos movimentos, a emoção. Vou interpretar algo que me emociona de verdade, isso deve contribuir.
O fim de semana passou rápido... já estou na segunda-feira. Vai dormir, Elisa. Mas antes preciso colocar uma imagem do olhar mais alma que já vi em uma representação artística: nunca me canso dos olhos da suposta Suzon, desse Manet chamado Un bar aux Folies-Bergère.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

da História da Mímica

Encontrei esse pequeno artigo na internet sobre a história da mímica (ou pantomima, a mímica clássica), de Hugo Oskar. Como a minha professora havia pedido que fizéssemos uma pesquisa a respeito dessa história, deixo aqui também uma parte da minha. A mímica é realmente o maior desafio da expressividade do corpo.



*História da Mímica*

Em 1979 fomos convidados para o VIII Festival de Bonecos, em Petrópolis-RJ. Apresentei uma performance que demonstrava o trabalho relacionando "mímica e objetos animados". A produção do programa "Bambalalão" (TV Cultura), interessada por nosso trabalho, nos convidou para criar 100 quadros de mímica. 
Sempre que se fala em mímica, vêem as seguintes perguntas: Teatro? Dança? Brincadeira? Mímica é tudo isto e, principalmente, é Arte.
O conceito de Mímica provém da Sicília: assim se denominavam as apresentações das farsas camponesas e burlescas. Recebeu a sua forma definitiva pelo siracusano Sôfron, por volta do ano 430 a.C. Suas criações são homens no sentido mais amplo da mimesis, feras humanizadas. Sôfron é o criador dos antepassados mais remotos do enredo das peças de Shakespeare, "O Sonho de uma Noite de Verão" em uma de suas obras (conservado em fragmento) faz com que o ator que representa o burro fale do jeito que comia fenos e folhas.
O mímico é como um fio que conduz, sem interrupções, desde a Pré-História até a Idade Média, passando por Roma, Bizâncio e chegando junto com os teatros moderno e contemporâneo.
Voltemos ao passado e vamos ver o que pensavam os povos primitivos: devido às mudanças de climas, normalmente os povos eram nômades, tinham que viajar de um lugar a outro e procurar comida para se manterem vivos. O teatro (falo de teatro como um todo incluindo a mímica) dos povos primitivos conserva suas raízes no longo subsolo dos impulsos vitais da origem das misteriosas forças da magia, o conjuro à transmutação vinculada com a caça dos povos nômades da era paleolítica, as danças das colheitas e fertilidade; dos primeiros semeadores e agricultores, os ritos da iniciação do totenismo, do xamanismo, do culto aos deuses, a forma e conteúdo da expressão teatral, condicionado pelas necessidades vitais e as crenças religiosas. Delas se derivam as forças elementares que convertem o homem a um médium, que o capacitam para se elevar por cima de si mesmo e de seus colegas da tribo. 
O homem tem personificado as forças naturais, tem convertido em seres viventes o sol e a lua, o vento e o mar. Seres que disputam, lutam e batalham entre si, e podem ser influenciados em proveito do homem mediante o sacrifício, a adoração cerimonial e a dança.
As fontes pré-históricas populares, folclóricas, assim como datas da História das religiões, oferecem um material abundante de danças culturais e festejos das mais diversas informações do início do Teatro. Os ritos da fertilidade com os índios cherokees (EUA), acompanham hoje a semeação e colheita do milho, encontram sua correspondência nos festejos musicais e pantomímicos dos japoneses em honra ao arroz. O teatro primitivo se serve dos meios extras corporais próprios da arte mais desenvolvida, máscaras e vestuários, acessórios, decorações e orquestra foram utilizadas, logicamente em forma mais simples.
Em nossos dias é possível encontrar o teatro primitivo em três manifestações: nos povos relativamente isolados que vivem em um estado primitivo e que, em suas representações mímico-mágicas, se aproximam a uma hipotética condição originária da humanidade; nos gravados sobre madeira e ossos e, por último, nos inumeráveis tipos de costumes populares e de danças, mímicas e folclore, em diversas regiões da terra.
A luta dos mímicos pelos caminhos solitários da pantomima é um exemplo do teatro intemporal e, com isto, se abrem as portas que nos conduzem a todos os povos em todos os tempos: danças das culturas primitivas à pantomima das evoluídas culturas asiáticas; mímica dos antigos até a Commedia dell’ Arte.
A habilidade do mímico consiste em criar a ilusão do tempo. O corpo é convertido em seu instrumento, que substitui uma orquestra: a expressão do som mais pessoal o transforma em uma expressão universal. O mímico foi o único ator que não teve preconceito com as mulheres, portanto, desde o começo, em suas viagens, se fazia acompanhar por dançarinas, bufões, julgares, mágicos, etc.
As fontes pré-históricas, populares, folclóricas, assim como datas da história das religiões oferecem um material abundante, danças culturais e festejos das mais diversas informações do início do teatro.
No princípio foi a crença aos deuses, o desejo do homem por assegurar seu favor e sua ajuda.
Os caçadores do período glacial se reuniam na gruta de Montespam em torno de uma estátua de argila coberta com pele de urso, e eles se fantasiavam de ursos em ritual mímico-mágico, agrediam a estátua até cair simulando a sua morte, acreditando no êxito da caça do urso.
A paleolítica dança do urso das cavernas Francesas de Montespam ou de Lescoux corresponde a festas dos troféus do urso da Ainu no Japão pré-histórico, e ainda se repete em algumas tribo da Índia e América do Norte, nos bosques africanos, na dança dos búfalos feitos pelos índios americanos, nas danças Australianas de Corroboru, nas pantomimas do canguru, do Emu e da foca nas mais diversas tribo indígenas.
Normalmente as grandes escolas de mímica são encontradas na Europa: são elas que marcam a linha de comportamento do público interessado em assistir a este tipo de representação hoje. As apresentações dos mímicos têm sido elitisadas, quando sua trajetória sempre foi popular, como na Grécia e Roma antigas e na Idade Média, sempre com uma mentalidade nômade de viajar por todos os cantos do mundo.
Para se tornar um mímico profissional precisa-se de muito esforço, perseverança, disciplina, estudo corporal, passando por vários estágios, aprendendo a gramática do mímico, história do teatro, história das artes, física, maquiagem, dança, anatomia e outras matérias.
Existem diversos exercícios da gramática da mímica que são imprescindíveis: as caminhadas, de frente e de perfil, como Carlitos; puxada de cordas, horizontal e vertical; posições das mãos em referências aos objetos; mãos apoiadas em um vidro; luta contra o vento. São alguns dos exercícios que o mímico deve praticar diariamente para poder levar ao palco uma apresentação de agrado para todo tipo de público.
Quando em seu estudo: nascimento, amadurecimento, velhice e morte, apresentadas em seqüência como no cinema, em poucos minutos através da vida de um homem, chega com força intensiva da expressão do drama primordial, trata-se da arte da identificação do homem com a natureza, com os elementos, que ficam perto de nós.
A habilidade do mímico consiste em criar a ilusão do tempo: o corpo é convertido em seu instrumento, que substitui uma orquestra, a expressão do som mais pessoal a transformar-se em uma expressão universal.
Hoje os “mimos” tem estilos decorrentes de escolas européias, como Marceal Marceux e Entiel Decraux, na França, e escolas da Polônia e Inglaterra. O trabalho da maioria das escolas é baseado no folclore oriental e no mundo antigo, só que estilizado esteticamente. Nós, mímicos latino-americanos, devemos procurar nossas raízes que são ricas em criatividade: Antonio da Nóbrega, do teatro Brincante, tem um trabalho riquíssimo com referência a este tema.
Muitas pessoas acreditam que pelo fato de os mímicos maquiarem o rosto de branco ele tem a obrigação de fazer palhaçadas, mas existe uma diferença muito grande. A finalidade do mímico no palco não é fazer o público rir às gargalhadas, mas sim mostrar a vida de forma alegre, simpática e crítica.

Nota 1: Hugo Oskar é mímico, marionetista e artista plástico. Atualmente é diretor do grupo de Teatro de Animação Metamorfaces. Para saber mais sobre o grupo acesse:http://www.cooperativadeteatro.com.br/nucleos/metamorfaces.htm

Nota 2: O mímico da foto é Marcel Marceau, um mímico francês considerado por muitos o maior do século XX. Teve muito êxito no período pós-guerra.

domingo, 3 de abril de 2011

De apanhares e olhares

O sábado começou cheio... claro. Acordei com o despertador, pronta para ir ao Hermes Pardini e desfilar pra moça do atendimento o meu arsenal de pedidos de exames médicos, bem cedinho. De pálpebras inchadas e vestido, fui pedir à querida mamãe o cartão de ônibus, quando ela me fez ver o óbvio: não era uma boa ideia tirar mililitros de sangue no dia da semana em que eu faria mais exercícios físicos! Ora, mais uma vez a falta de talento para as coisas práticas de my life. Como não percebi o contrasenso, me explica?! Coloquei de volta o pijama e me deitei. Outro erro.
Sou uma moça prendada que ajuda em casa, e só me lembrei disso tomando café, às 9.30, quando fui perguntada sobre quem faria o supermercado. Eu, né? Rachei com o carro pro BH Supermercados, porque se ia gastar dinheiro, que não fosse com aquele supermercado careiro da dona Ana Maria Braga. Nunca... nunca fiz uma compra tão rápida, e mesmo assim me atrasei para pegar o ônibus pro SESC. Nem vou contar sobre o hilariante episódio da fila do caixa imensa e das pesagens de frutas que esqueci de fazer, deixando todo mundo atrás de mim na fila beeeeem zangado... coisas. Coisas acontecem.
Ainda bem que a aula de História do Teatro havia demorado a começar. O professor Roberto fez com a gente uma leitura dramática de Medéia durante as duas aulas, e descobri as características críticas da obra: mais que uma ode aos deuses (muito mais), a peça é uma crítica à posição da mulher no clássico mundo grego, mundo no qual uma mulher poderia ser tomada e arremessada à própria sorte com grande facilidade. Uma escrava doméstica, uma esquenta leito (ou, pra ser clássica, esquenta tálamo). Medéia é entendível, é passível de empatia, mesmo sendo a bruxa que matou os próprios filhos. Não me mordam, macacos leitores. Leiamos todos Medéia, não vejamos os tais filmes. Nao nos enganemos: Medéia foi mais mulher que feiticeira, mais humana que sobrenatural, mais paixões que frieza moral. Não, acho que não existe frieza moral, existe?
E então, vamos desgrudar o bumbum da carteira, vestir legging preta e ir pra aula de Improvisação? Não antes do lanche, porque afinal é a aula do Didi. Apenas uma hora de aula, na sala dos espelhos... fiquei decepcionada: uma hora, pouquissimo tempo oras!
Primeira meia hora: Aquecimento com tortura - ops, - posições de esforço muscular e respiração, apenas nos primeiros minutinhos. Depois, o início da primeira cena que improvisação que faremos individualmente: Didi nos pediu que nos posicionássemos frente ao espelho e experimentássemos movimentos nos quais estivéssemos apanhando de uma pessoa invisível. Prestando atenção em detalhes como precisão dos movimentos, tensionamento dos músculos e expressões corporais em geral, deveríamos escolher uma sequência de três desses movimentos para serem encenados um após o outro, e memorizá-la. Não foi legal essa meia hora, te digo. Ficávamos lá, caindo e nos debatendo como uns malucos, buscando expressões no espelho para sensações das dores que não sentíamos... que falta me fez um subtexto. Subtexto, pra quem não sabe, é a "historinha" que o ator/atriz cria na sua cabeça, o passado/presente/futuro da personagem que está interpretando. Esse subtexto não é para ser compartilhado, sua função principal é convencer o ator da veracidade das paixões da personagem, é criar uma intimidade maior entre essas duas instâncias. O subtexto é um dos artifícios do improvisador na busca pela verossimilhança, pela veracidade da sua vivência teatral. Chorar ou rir sem motivo não é fácil, e provavelmente não serão choro e riso verdadeiros o suficiente para comover o espectador. Porém, o choro causado por um suposto trauma que a personagem carregue, ou o riso de uma personagem com tendências esquizofrênicas são emoções mais ricas, que convencem, confundem, incomodam. Isso me lembra as personagens planas em oposição às esféricas, na literatura. Personagens planas são aquelas que só têm uma face: são boas ou más, heróicas ou vilaníacas. As esféricas são aquelas que mais se aproximam da vivência humana do mundo: são plurilaterais, têm um comportamento psicológico complexo e, por isso, mais interessante. Enfim, personas.
Voltando à cena do crime: sala dos espelhos, Elisa se jogando no chão e simulando movimentos brutos. Não, simular não era o suficiente, parecia dizer o Didi encostado ao batente da porta, gritando. "Não estou vendo verdade, não estou vendo corpo, mais dez minutos!" Resolvi escolher logo uma sequência de três movimentos e focar neles, em lugar de ficar experimentando um monte. Repetição, repetição, repetição. Tudo ali é repetição. Chute no estômago, espanto, envergar-se para frente, olhar pra cima, tapa na face esquerda, queda ajoelhada (joelhos, ai!), limpa a boca, chute nas costas, queda de quatro (joelhos, ai!). Não tá bom.
Agressor bem próximo, para poder dar o chute com o joelho no abdômem. Desconfiança seguida de chute. Salto pra trás com envergadura pra frente, dobrando-me sobre o estômago. Olhar surpreso que se levanta, sem sair da posição envergada ("Postura! Precisão no movimento! Não é uma donzela desmaiando não!"), olha pra cima sem entender, face esquerda mais alta e mão direita na altura do estômago. Um tapa que vem do alto, na face esquerda, jogando o rosto pra baixo. Com a força do golpe, uma queda com o joelho esquerdo direto no chão (joelhos, ai!), mas a perna direita tenta manter o equilíbrio, pé no chão. O dorso da mão direita passa lentamente sobre a bochecha esquerda: limparia sangue? Nesse momento, um pé nas costas, e o impacto do outro joelho no chão (joelhos, ai!). Faltam as mãos e... pronto, de quatro. Repetição, repetição, repetição. Não, meu joelho direito não tá legal não... =(
No fim da primeira meia hora, o Didi nos chama para incluir esse exercício numa cena improvisada. Nos recolhemos para um canto da sala e ele coloca uma cadeira bem no meio. Explica que a cena é simples, são alguns movimentos (incluindo nossa sequência memorizada) e quatro pequenas falas. Ele encena o que será a base para a improvisação que todos nós teremos que fazer dentro de duas semanas: Abre a porta, entra temeroso e se senta na cadeira. Dá as quatro falas: "Bruno. 18 anos. Sim, eu sou casado. Eu amo a minha mulher." A partir daí, a sequência de agressões, e a repetição dessa cena em progressão dramática, ou seja, cada vez mais impingindo dor, sofrimento, delírio, choro, angústia, demência ou o que mais a gente queira colocar na cena, para elevar a tensão. Simples, né? Não. Ferrou. O subtexto é por nossa conta também, e podemos incrementar com outros movimentos que a gente pense serem necessários.
Não adianta tentar separar as coisas: pensei nisso pelo resto da tarde de sábado e estou pensando até agora. Acho que já tenho o subtexto quase pronto, mas sou daquelas perfeccionistas chatas que fica ensaiando mental e corporalmente o trem. Alguém aí se dispõe a me bater, pra eu fazer as marcações de onde os golpes pegam, onde devo proteger com a mão, que músculos tensionar e que caretas fazer? Candidatos e candidatas, deixem nome e telefone. (Brincadeira. Ou nao.)
Assim se passou a segunda meia hora: explicações e eu sendo pega para demonstração. Ô talento, cadê você nessas horas de ser surpreendida com as calças na mão?!
Em seguidíssima, duas aulas de mímica. Os professores estavam mesmo decididos a nos dar um chá de repetição e monotonía ontem. Depois de duas horas de leitura de Medéia e mais uma hora em uma mesma prática corporal, mais duas aulas de... observação da própria imagem e da imagem dos outros. A professora de mímica colocou uma música e colocou todo mundo de frente pro espelho. De novo, sim senhora. Cada um devia olhar para a sua imagem no espelho durante loooongos minutos, tentando distanciar-se de si mesmo, pensar na sua imagem como se fosse a de um desconhecido que andasse pela rua. Já tentou? Difícil pacas. Só no fim da aula eu ia perceber que a verdade é que aquele era um exercício para não ser conseguido. É impossível olhar para mim sem ver todos os juízos que já fiz de mim mesma, sem contar as impressões que as outras pessoas já afirmaram ter a respeito da minha aparência. Fiquei com a impressão de que esse é dos exercícios de meditação mais exigentes que há. E eu não sei meditar. Primeiro, os detalhes chamam a atenção: sobrancelha que fiz torta, olheiras das noites passadas, manchas de sol, excesso de peso, costas curvadas, cabelo com frizz (deve ser o shampoo Pantene, uso demais). Depois, o ridículo, sempre ele: "Isso não faz sentido. O que estou fazendo aqui? Isso me ensina o que? Sou inteligente, sei que é impossível me distanciar blábláblá...". Impossível calar o pensamento de Elisa, ou melhor, impossível calar o pensamento e ponto final.
Segunda etapa: a exposição à chacota alheia. Ops, quer dizer, o momento de compartilhar impressões. Né?! Tem que ter. A ideia era ficar de frente para todos os outros e de costas para a parede de espelhos. De pé, contar aos outros o que viu sobre você, o que sua imagem diz. Os outros, sentados à sua frente, devem concordar ou não com as suas impressões, e eles também julgarão a sua aparência. Incômodo? Você ainda não viu nada. Vergonha alheia? O que é vergonha perto daquilo ali?
Fui a primeira, melhor é cortar o mal pela raiz, arrancar o bandeide de uma vez só, levar na cara sem ter tido tempo de se proteger. "Minha imagem me diz de alguém orgulhoso e preocupado". Como os outros ainda estavam tímidos, ouvi coisas como "simpática", "carinhosa", "traços delicados", "dedicada". A partir daí, foram todos misturando as impressões de imagem com demais impressões da personalidade de cada um. Aproveitou-se para "falar na cara"  e para "puxar o saco". Alguns lá na frente aproveitaram para falar de como são (ou acham que são), justificando sua aparência, seus olhares, suas "primeiras impressões" acerca uns dos outros. Bastante desvirtuado, o exercício me mostrou muito nesse "não-funcionar" dele: não sabemos nada de imagem, não sabemos nada de auto-imagem. Nosso espelho pessoal é borrado, viramos as costas para nossos traços mais óbvios. Preferimos nos ver nos olhos dos outros, através de simpatias e antipatias. Empatia mesmo, aquela que nos faz entrar de verdade na existência do outro... difícil. Caminhamos sobre uma superfície muito frágil de estereótipos e observações pouco interessadas. Queremos mesmo conhecer os outros? Nos conhecer? Eu não sei não. Pensando no ator/atriz: ele não quer representar um outro no palco, ele quer SER um outro (como já falei numa das aulas passadas). Para ser um outro, teremos que ultrapassar essas barreiras do nosso olhar viciado e superficial. Teremos que ENXERGAR os outros, para saber como atuar. Teremos que ENXERGAR a nós mesmos, para saber até onde poderemos ir nessa mímese.
Dever de casa: observar e relatar a maneira como as pessoas reagem a nós, à nossa aparência, mas ruas. Observar gestos e falas, olhos e silêncios constrangedores. Qual a impressão que deixo, que passo? Também pra isso procuro contribuiçoes! Deixe seu recado sobre a minha imagem apos o sinal! =D

Um tiquinho de pratica da primeira posicao dos pes e das maos na mimica classica... ao menos pude estreiar minhas sapatilhas de ballet pretas (comprei na Ballet Branca de Neve, na rua da Bahia. Quem quiser...). Fim das aulas, tinha chovido a tarde quase toda, ne? Ou apenas meia hora, nao sei. Muito dificil prestar atencao no tempo la fora, quando estao me incitando a focar bem aqui dentro de E(u)lisa. Saida em carreira, fui ser filha de Deus e namorar um pouquinho no sabado a noite! Mas nao sem olhar os olhos se cruzando pelo meio do caminho.

*Sinal: BEEEEEEP.







sábado, 26 de março de 2011

Da dor verossímil

Quase que não conto nada hoje, viu... Foi só o Didi dar a última aula de Improvisação por terminada - e todos nós, aprendizes de preto, batermos palmas - e tudo no que eu conseguia pensar era em algum lugar minimamente confortável para jogar meu corpinho e esquecer da existência. Drama, drama, drama. Ninguém, dos que não haviam desistido da aula no meio e ido embora, teve ânimo para descer ao vestiário para trocar de roupa. Ninguém. Fizemos malabarismos ali mesmo (pra não mostrar demais), calçamos os sapatos/tênis/sandálias e cada um foi saindo meio cabisbaixo, meio desbaratado, meio pela metade. Eu coloquei meu vestidinho branco por cima da legging e da camiseta preta, calcei o all star molinho e redentor, catei a bolsa e saí correndo pela rua, até a Afonso Pena. Tô falando serio, eu saí correndo pela rua (Tupinambás, Curitiba, Paraná) e só parei quando tava chegando à avenida e vi uma lanchonete aberta ali, naquele finzinho de dia no centro da cidade. Eu tava morta e só queria tirar um cochilo no ônibus, mas parei pra comprar uma latinha de suco de uva light... fome monstra e gastrite ameaçando gritar. Elisa para o caixa da lanchonete: "Moço, me dá um suco de uva?" "Taí, 3 reais." "Toma. (eu devia ter reclamado do preço). Quer canudinho?" Elisa: "Sim. Ahn... ah não. Quer dizer, talvez. Ah, quero não, moço. Não liga não, eu saí da aula agora e tô muito cansada."
Sim, meus caros, eu tava no nível de desabafar com desconhecidos! Lama. E não, eu não corri por estar atrasada pra pegar o ônibus... sei lá porque eu corri, na verdade. Acho que eu queria MESMO fugir daquele auditório. Pode não parecer, mas essa é a melhor maneira de começar o relato de hoje, viu.
Importante vocês saberem que na noite passada (sexta-feira), saindo da aula de Literatura Espanhola às 22:30, cheguei ao estacionamento e descobri que a bateria do carro tava arriada. É... eu não ia conseguir sair do campus e não tinha o telefone do mecânico. Meu pai estava dormindo e minha mãe mandou eu me virar. E me virei: chamei desconhecidos bêbados da calourada da FAFICH para fazer o carrim pegar no tranco, depois de muito drama interno "Não vou sair do campus nunca mais, vou ter que dormir aqui, tô com medo, o mundo é injusto, onde está o meu Deus, etc, etc". Cheguei em casa, briguei com a dona minha mãe e fui dormir p* da vida. Sabe... isso não é legal. Gosto de ter tempo de lidar com a raiva, digerir, acalmar os ânimos (e a incidência da palavra "anima = alma" não é por acaso). Dormir com raiva é uma das piores coisas que existe. O corpo não descansa, a mente não relaxa, e você pode ter sonhos horríveis durante a noite toda sobre carros arrombados, bandidos nojentos e sentimento de fracasso e injustiça, como no meu caso. Enfim, acordar foi horrível e pela manhã de hoje eu estava muito, muito mal-humorada.
Tá, parem de me xingar pelo desabafo, já estou indo pro relato das aulas em si. Só achei que seria interessante vocês saberem um pouquinho da performer, pra poderem fazer um juizo mais completo da performance. Malzaê.
Mezzo irritada, mezzo atrapalhada. Acordei tarde e tive que sair correndo, pois tinha me programado pra comprar a sapatilha de meia-ponta lá na Espírito Santo (loja "Ballet Branca de Neve", indicada pela querida mas distante Bia, no facebook) antes de ir pro SESC. Achei a loja, entrei, experimentei e comprei as sapatilhas pretas e apertadas. Só dei bola pra menininha de uns 3 anos que tava lá com a mãe comprando um figurino de abelhinha... ela ficou olhando a minha cara de desconforto ao calçar as sapatilhas, e acho que se solidarizou. Simpatizei, mas isso nào me impediu de esbarrar desastrosamente no carrinho que levava a mamadeira e as coisas dela e jogar tudo no chão quando eu tava indo embora... a culpa é da minha bolsa, não minha.
Pronto, cheguei. Garrafinha de água cheia, bunda na carteira. Duas aulas de História do Teatro com o professor Roberto. Começamos com a leitura da peça Medéia e algumas explicações do professor sobre o teatro grego. Algumas referências teóricas (Nínive Pignatari e Júlio Cabrera) e a história de uma mulher que, não tendo seu amor correspondido pelo marido - ele a chifrava - resolve vingar-se impingindo a ele uma dor maior que qualquer ferimento de morte: mata os dois filhos do casal. Medéia e seu amor odiado, seu ódio tão amado. Não achem feio da minha parte, mas não consegui sentir raiva ou desprezo pela Medéia hoje. Não que encontrasse justificativa para o seu ato, mas as paixões que arrebatam irremediavelmente o Homem estavam fazendo mais sentido... porque eu mesma estava com raiva, eu mesma estava experimentando uns sentimentos bem tremendos de irritação e tal. O mal-humor havia me deixado meio intensa, hoje.
A melhor parte dessa aula se referiu ao estudo dos conceitos de verossimilhança e mímesis no teatro. Já me deparei com esses conceitos várias vezes no meu curso, mas houve bastante diferença na abordagem do professor. Primeiro: a atuação ficcional deve ser verossímil. Isso quer dizer que a peça deve convencer o espectador de que o que está se passando em cena É a verdade: se não uma verdade na vida deles, ao menos a verdade daquele momento, daquele espetáculo. Ou seja, o ator não finge que faz algo: ele realmente o faz, e sente, e vive o personagem com absoluta realidade. O ator que finge em cena é um repetidor de palavras decoradas, um autômato programado para as reações óbvias e, pior, para provocar nada além de entretenimento em seu espectador. O poeta é um fingidor que finge a dor que deveras sente, já dizia Fernando Pessoa. Assim também o é o ator/atriz. Não basta fingir, é preciso sentir o texto e torná-lo realidade, como que por mágica, em frente aos olhos do público. Essa mulher na imagem aí de cima nào representa a Medéia, ela É Medéia. E Elisa lá, ouvindo o professor e anotando...
Quanto à mímesis, ela se refere à possibilidade de promover essa representação visceral do personagem com base na observação das pessoas no mundo: gêneros, classes, formas. Uma imitação extremamente bem-feita desses "outros sociais", menos querendo imitá-los e mais querendo sê-los, de verdade.
Fiquei conhecendo também o nome chique que posso dar praquele recurso horroroso de final de novela das oito! Sabe quando, no fim da novela, todos os problemas se resolvem como num passe de mágica? Quem brigava faz as pazes, quem tava sozinho arranja namorado, quem tinha namorado engravida (Ó! A gravidez é mesmo o ápice da existência feliz!) e quem tava gravido dá à luz bebês fofos e rosadinhos? Pois é, essa "mão divina" que resolve todos os conflitos que o autor não deu conta de resolver de um jeito inteligente se chama, no teatro, Deus ex Machina. Vou usar essa nomenclatura nos meus papos culturais na FAFICH e esnobar a rapaziada, anota aí.
Intervalo, troca de roupa e todo mundo sai da sala de aula e corre pro auditório pra uma aula super divertida de improvisação. Aham... sentá lá, Cláudia.
Dor. Dessa vez o Didi não falou muito não. Deu algumas coordenadas no início, explicando que nossa prática seria no sentido de liberar o corpo, de "provocar o caos" (ele adora essa expressão) nas nossas reações motoras e nos tornar, assim, menos ligados à nossa aparência bonitinha e normal, e mais férteis para a interpretação. Ah, e disse também que quem achasse que ia desmaiar ou sei lá mais o que, que pedisse pra sair e ficasse de cócoras, respirando, sem fechar os olhos. Tudo no maior estilo "em caso de emergência, acidente grave e perda dos sentidos, aperte aqui". Espero que não tenha sido só eu que pensei que a partir dali, estaríamos todos muito, muito, muito ferrados.
Levantar o quadril e prender a respiração, músculos tremendo, dor, suor, mais dor, vontade de chorar, dor e vontade de mandar o Didi praquele lugar. Que que ele tá querendo? "Não reclamem, não quero ouvir gemido, o público não precisa saber que você sente dor", gritava o professor de Impro. Ponte com o corpo, me apoiando com as pontas dos pés e os cotovelos. Depois só um pé. Depois, sem respirar. Exercícios para enrijecer a musculatura, sentir-se como se estivesse tentando se livrar de um chão que te prende, que não te deixa desgrudar... agonia, olhar, musculatura retesada, grito, mudez, raiva. Quando, no meio do exercício de ponte, o Didi veio me encarar e debochar de mim, pedindo que eu fizesse uma expressão de raiva, de ódio, gritando comigo... poxa vida, como eu senti ódio. Como eu me lembrei do professor Roberto e da verossimilhança... e como faz sentido não fingir raiva, mas educar o corpo para senti-la de verdade no momento em que você precise dela, em cena. É absolutamente diferente, é absolutamente libertador. A partir dali, e até o fim da aula, coloquei raiva em cada um dos exercícios. Toda a raiva do carro estragado, de ter me sentido sozinha, da minha mãe, tudo... tudo bem ali na frente do professor. Quase ao fim da aula, uma performance de verdade: tinhamos que encenar (com a trilha sonora do filme "O Piano", aquela maravilha) um encontro amoroso, uma dança, a recusa da mulher ao homem e uma segunda dança, dessa vez cheia de ressentimento e... raiva. Não vou falar da minha performance, deixo isso a cargo da imaginação fértil dos senhores. Mas foi legal, apesar das dores.
Dores. Voltamos agora à cena do all star molinho, da corrida pelas ruas do centro e, enfim, chego em casa. Um banho de olhos fechados e cama pra Elisa. Prometi pra mim mesma que só escreveria amanhã de manhã... porém, mais uma vez, o comichão da auto-ficção bateu às portas da minha consciência e aqui estou eu, despejando as bubiças. Espero não ter chorado mais pitangas que o suficiente.



domingo, 20 de março de 2011

Da tigresa

Panturrilhas e costas doendo bastante por conta da aula de Improvisação punk de ontem... Queria ter ficado o dia todo no sofá, mas sair valeu a pena [/love is in the air feelings].
Precisava postar a música que a Renata Leminski super-poderosa cantou pra mim outro dia, quando nos encontramos na cantina da Fafich. Eu não conhecia, mas fiquei fã da tal "Tigresa"! E eu já não gosto nem um pouco de felinos, né... São os animais mais bonitos da face da Terra. "Somos ainda espertos, brincalhões, orgulhosos, inteligentes e extremamente carinhosos", gritam Gaudí, Florbela e Frida, deitados no sofá aqui do meu lado.


"Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel
Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta sem certeza tudo o que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin' Days
Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair
Com alguns homens foi feliz com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz, vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão
As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não
E eu corri pra o violão num lamento
E a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento..."

Tigresa - Caetano Veloso

sábado, 19 de março de 2011

De Téspis, encontro de improviso e moonwalk

Quase perdi a aula de hoje. Meu pai está se mudando, e tive que ir ajudar com os carregamentos hoje de manhã bem cedo, pra estar liberada às 11h. Meu pai está se mudando de um apartamento no quarto andar, o que me fez subir e descer escadas milhões de vezes... e eu nem podia imaginar que estava me preparando para as aulas de improvisação de hoje. Sério.
Nada de calça estranhaurel dessa vez... fui de legging e camiseta preta, o básico. Um short larguinho por cima da legging me impediu de ficar fazendo exposição devassa da minha figura pelas ruas, até chegar ao SESC.
Primeira aula: História do Teatro, com o professor Roberto. Formado no TU e em Artes Cênicas, um moço boa praça e entendido do teatro grego. Como aula inicial, falou sobre os trágicos Ésquilo, Sófocles e Eurípides; introduziu também os mais conhecidos comediosos: Aristófanes (sim, aquele que deu a ideia mestra da greve de sexo já nos tempos mais primórdios) e Menandro. Adoro História, e adoro que me contem histórias. Sendo assim, fiquei viajando nos temas, mas imagens das estruturas de auditório grego e, claro, na figura do Téspis. Téspis, o tão falado primeiro ator reconhecido no mundo ocidental. Gostei do conto sobre esse fanfarrão que resolveu, em lugar de louvar a Dioniso, colocou-se no lugar do deus através da interpretação... Quantos não quiseram ser deuses, ou simplesmente ser outra pessoa, antes dele? Depois vou escrever um post só sobre essa história, sabia? Já divaguei litros a respeito.
E a preparação física nas escadas que subi e desci, carregando  chapéus panamá e quadros de Mariana do meu pai? Pois bem, me serviu para a aula de Improvisação, com uma nada cândida pessoa chamada Didi.
Nosso professor de Improvisação foi um grato encontro improvisado. O Didi está fazendo mestrado na Letras, e com a professora Sara Rojo, uma das melhores de que tive o prazer de ser aluna. Fantástico! E, pensando com meus botões, essa deve ser uma relação de sucesso... Didi é tão visceral no teatro como a Sara nas aulas de literatura e teatro hispanoamericano. Trabalha o corpo e a presença do ator, em primeiro lugar. Nada de recitador inanimado de textos decorados: o que o Didi parece querer de nós é uma vivência artística pra lá disso aí. Para se ter uma ideia, ele disse várias vezes que o ator/atriz começa a produzir a partir da exaustão física. "Hein?", perguntarão vocês (ou não). Sim, exaustão. Como diretor/preparador, o objetivo do Didi parece ser fazer-nos esquecer os cacoetes de postura e, pior ainda, as encenações caricatas ou mecanizadas que a gente acha que fazem sucesso em cena. "Menos é mais também na interpretação", disse o Didi. Pra quê me contorcer toda e babar pra interpretar um velho, se consigo algo mais genuíno e interessante com a expressividade do olhar, ou ao tensionar partes específicas do corpo? Fiquei fascinada, mas com medo também. Esse papo de exaustão física me lembrou algo que alguém na academia me disse uma vez (achoq ue no treino de jiu-jitsu) a respeito da exaustão. Essa pessoa me disse que quando o corpo dá sinais de que não aguenta mais, é como um alarme falso. Nosso carro diz que a gasolina já acabou, quando sempre restam ainda aqueles litros para emergência. Com o tanque quase a zero, o Didi (e alguns teóricos do teatro de que ele falou e não me lembro) acredita que nos tornamos menos capazes de coordenar nosso corpo daquela maneira como estamos acostumados a domesticá-lo. Além disso, passamos a ser mais movidos por emoções (choro, raiva do professor, desespero por causa da dor), o que influenciaria positivamente na atuação. Não sei... talvez não faça sentido pra muita gente, mas pra mim fez. Afinal... o que um espectador quer ver em um ator? Esse último não representa paixões humanas no palco? Essas coisas têm que ser viscerais, sob pena de se tornarem um Zorra Total de sábado à noite.
Estranhou a imagem de uma aula de Kung-fu neste post? Pois ela explica bem o que veio depois desse tempo ouvindo o que o Didi tinha a dizer sobre improvisação. O que veio foi exaustão muscular, respiratória, mental. Pulos, gritos, variações enlouquecedoras na respiração, e até versões disso aí que os moços estão fazendo na imagem, o ma bu. Já tentou ficar nessa posição até as pernas começarem a tremer sem parar, o suor escorrer, a dor nas coxas ser insuportável? E já tentou fazer isso na ponta dos pés? O ma bu tem suas justificativas no Kung-fu. Nada disso é praticado com o simples objetivo da dor... e acredito que também não seja o caso da prática com o Didi. No Kung-fu espera-se alcançar níveis de consciência mais sutis com essa prática. Após o período inicial de dor intensa (se a genet aguentar), é possível entrar num estágio de profunda observação do próprio corpo, do equilíbrio... e tudo isso, nem preciso dizer, é uma maneira de encontrar em si mesmo determinação, foco. Gosto disso, mas confesso que parece bem menos elevado e nobre quando você está lá ouvindo os gritos do Didi e suando como porco indo pro abate. Agora à noite, sentada no sofá da sala, sinto que tenho um joelho esquerdo um tiquinho mais ferrado do que tinha hoje de manhã!
Não... a tarde não tinha acabado. Depois de uns minutos para beber água e de uma crise de cãimbra bem chorosa de uma mocinha (meu palpite é que pelo menos metade da turma estava querendo chorar, àquela altura), começou a última aula: Mímica Clássica.
A professora Sula parece uma ex-bailarina, pelo porte e pela delicadeza. Essa aula foi um bálsamo depois do sofrimento e chororô da aula anterior! Sabe aquelas músicas de cinema-mudo? Aquelas animadinhas que lembram Charlie Chaplin? Pois é, começamos com um aquecimento das articulações, todos voltados para a parede de espelhos, nos movendo de um jeito que lembrava demais o cinema-mudo. A professora ia fazendo os movimentos, sempre sorrindo de leve, e a gente parecendo um bando de patinhos desajeitados atrás da mamãe-pata. Eu ri! Sempre soube que sou desastrada e mega desarticulada, e dessa vez não foi diferente. Tenho que ter paciência comigo, e isso talvez seja o mais difícil pra quem quer aprender bem e rápido!
Sula repetia, durante a aula: "'Mímica é concentração e repetição. Concentrem-se no movimento e nada mais", enquanto passava a primeira posição dos pés e, na sequência, a primeira posição das mãos. Se parece muito com uma aula de ballet para iniciantes... teremos que usar sapatilhas, e o primeiro movimento é uma espécie de corrida simulada, sem sair do lugar. Simula a corrida para frente e para trás, e esse último é praticamente o clássico moonwalk michaeljacksoniano! Rimos bastante, principalmente para escondermos nossa falta de coordenação e nervosismo. Parece tão fácil! Mas para correr pra frente com desenvoltura e expressividade é necessário coordenar os passos com pés em meia-ponta e uma sucessão de pliés e relevés típicos do ballet... e eu nunca fiz ballet né personas? Vou comprar as sapatilhas que a Sula pediu e treinar durante a semana.
Teve também a primeira posiçào das mãos, a chamada "onda". Um movimentozinho aparentemente ridículo que acaba fazendo doer da ponta do dedo anelar até o pulso depois de uns minutos de prática. Medo dessas torturazinhas teatrais, viu? Talvez eu preferisse as pontas dos dedos descamadas de tanto agarrar kimono no jiu-jitsu! rsrs
Pra fechar, a professora Sula sugeriu que os alunos escrevessem sobre as aulas, para montarem para si uma espécie de apostila de técnicas teatrais. Escrever sobre a prática do dia exercita a memória e facilita o manuseio dos conhecimentos na medida em que avancemos no curso. Olha só, a Elisa já faz isso aqui! Claro que a descrição aqui deixa várias coisas de fora, né?... O blog tá mais para um compacto comentado dos melhores momentos... e eu só consigo fazer assim.
Agora sim, pra fechar: estou aceitando doações de sapatilhas de ensaio de ballet! Gracias.