O sábado começou cheio... claro. Acordei com o despertador, pronta para ir ao Hermes Pardini e desfilar pra moça do atendimento o meu arsenal de pedidos de exames médicos, bem cedinho. De pálpebras inchadas e vestido, fui pedir à querida mamãe o cartão de ônibus, quando ela me fez ver o óbvio: não era uma boa ideia tirar mililitros de sangue no dia da semana em que eu faria mais exercícios físicos! Ora, mais uma vez a falta de talento para as coisas práticas de my life. Como não percebi o contrasenso, me explica?! Coloquei de volta o pijama e me deitei. Outro erro.
Sou uma moça prendada que ajuda em casa, e só me lembrei disso tomando café, às 9.30, quando fui perguntada sobre quem faria o supermercado. Eu, né? Rachei com o carro pro BH Supermercados, porque se ia gastar dinheiro, que não fosse com aquele supermercado careiro da dona Ana Maria Braga. Nunca... nunca fiz uma compra tão rápida, e mesmo assim me atrasei para pegar o ônibus pro SESC. Nem vou contar sobre o hilariante episódio da fila do caixa imensa e das pesagens de frutas que esqueci de fazer, deixando todo mundo atrás de mim na fila beeeeem zangado... coisas. Coisas acontecem.
Ainda bem que a aula de História do Teatro havia demorado a começar. O professor Roberto fez com a gente uma leitura dramática de Medéia durante as duas aulas, e descobri as características críticas da obra: mais que uma ode aos deuses (muito mais), a peça é uma crítica à posição da mulher no clássico mundo grego, mundo no qual uma mulher poderia ser tomada e arremessada à própria sorte com grande facilidade. Uma escrava doméstica, uma esquenta leito (ou, pra ser clássica, esquenta tálamo). Medéia é entendível, é passível de empatia, mesmo sendo a bruxa que matou os próprios filhos. Não me mordam, macacos leitores. Leiamos todos Medéia, não vejamos os tais filmes. Nao nos enganemos: Medéia foi mais mulher que feiticeira, mais humana que sobrenatural, mais paixões que frieza moral. Não, acho que não existe frieza moral, existe?
E então, vamos desgrudar o bumbum da carteira, vestir legging preta e ir pra aula de Improvisação? Não antes do lanche, porque afinal é a aula do Didi. Apenas uma hora de aula, na sala dos espelhos... fiquei decepcionada: uma hora, pouquissimo tempo oras!
Primeira meia hora: Aquecimento com tortura - ops, - posições de esforço muscular e respiração, apenas nos primeiros minutinhos. Depois, o início da primeira cena que improvisação que faremos individualmente: Didi nos pediu que nos posicionássemos frente ao espelho e experimentássemos movimentos nos quais estivéssemos apanhando de uma pessoa invisível. Prestando atenção em detalhes como precisão dos movimentos, tensionamento dos músculos e expressões corporais em geral, deveríamos escolher uma sequência de três desses movimentos para serem encenados um após o outro, e memorizá-la. Não foi legal essa meia hora, te digo. Ficávamos lá, caindo e nos debatendo como uns malucos, buscando expressões no espelho para sensações das dores que não sentíamos... que falta me fez um subtexto. Subtexto, pra quem não sabe, é a "historinha" que o ator/atriz cria na sua cabeça, o passado/presente/futuro da personagem que está interpretando. Esse subtexto não é para ser compartilhado, sua função principal é convencer o ator da veracidade das paixões da personagem, é criar uma intimidade maior entre essas duas instâncias. O subtexto é um dos artifícios do improvisador na busca pela verossimilhança, pela veracidade da sua vivência teatral. Chorar ou rir sem motivo não é fácil, e provavelmente não serão choro e riso verdadeiros o suficiente para comover o espectador. Porém, o choro causado por um suposto trauma que a personagem carregue, ou o riso de uma personagem com tendências esquizofrênicas são emoções mais ricas, que convencem, confundem, incomodam. Isso me lembra as personagens planas em oposição às esféricas, na literatura. Personagens planas são aquelas que só têm uma face: são boas ou más, heróicas ou vilaníacas. As esféricas são aquelas que mais se aproximam da vivência humana do mundo: são plurilaterais, têm um comportamento psicológico complexo e, por isso, mais interessante. Enfim, personas.
Voltando à cena do crime: sala dos espelhos, Elisa se jogando no chão e simulando movimentos brutos. Não, simular não era o suficiente, parecia dizer o Didi encostado ao batente da porta, gritando. "Não estou vendo verdade, não estou vendo corpo, mais dez minutos!" Resolvi escolher logo uma sequência de três movimentos e focar neles, em lugar de ficar experimentando um monte. Repetição, repetição, repetição. Tudo ali é repetição. Chute no estômago, espanto, envergar-se para frente, olhar pra cima, tapa na face esquerda, queda ajoelhada (joelhos, ai!), limpa a boca, chute nas costas, queda de quatro (joelhos, ai!). Não tá bom.
Agressor bem próximo, para poder dar o chute com o joelho no abdômem. Desconfiança seguida de chute. Salto pra trás com envergadura pra frente, dobrando-me sobre o estômago. Olhar surpreso que se levanta, sem sair da posição envergada ("Postura! Precisão no movimento! Não é uma donzela desmaiando não!"), olha pra cima sem entender, face esquerda mais alta e mão direita na altura do estômago. Um tapa que vem do alto, na face esquerda, jogando o rosto pra baixo. Com a força do golpe, uma queda com o joelho esquerdo direto no chão (joelhos, ai!), mas a perna direita tenta manter o equilíbrio, pé no chão. O dorso da mão direita passa lentamente sobre a bochecha esquerda: limparia sangue? Nesse momento, um pé nas costas, e o impacto do outro joelho no chão (joelhos, ai!). Faltam as mãos e... pronto, de quatro. Repetição, repetição, repetição. Não, meu joelho direito não tá legal não... =(
No fim da primeira meia hora, o Didi nos chama para incluir esse exercício numa cena improvisada. Nos recolhemos para um canto da sala e ele coloca uma cadeira bem no meio. Explica que a cena é simples, são alguns movimentos (incluindo nossa sequência memorizada) e quatro pequenas falas. Ele encena o que será a base para a improvisação que todos nós teremos que fazer dentro de duas semanas: Abre a porta, entra temeroso e se senta na cadeira. Dá as quatro falas: "Bruno. 18 anos. Sim, eu sou casado. Eu amo a minha mulher." A partir daí, a sequência de agressões, e a repetição dessa cena em progressão dramática, ou seja, cada vez mais impingindo dor, sofrimento, delírio, choro, angústia, demência ou o que mais a gente queira colocar na cena, para elevar a tensão. Simples, né? Não. Ferrou. O subtexto é por nossa conta também, e podemos incrementar com outros movimentos que a gente pense serem necessários.
Não adianta tentar separar as coisas: pensei nisso pelo resto da tarde de sábado e estou pensando até agora. Acho que já tenho o subtexto quase pronto, mas sou daquelas perfeccionistas chatas que fica ensaiando mental e corporalmente o trem. Alguém aí se dispõe a me bater, pra eu fazer as marcações de onde os golpes pegam, onde devo proteger com a mão, que músculos tensionar e que caretas fazer? Candidatos e candidatas, deixem nome e telefone. (Brincadeira. Ou nao.)

Assim se passou a segunda meia hora: explicações e eu sendo pega para demonstração. Ô talento, cadê você nessas horas de ser surpreendida com as calças na mão?!
Em seguidíssima, duas aulas de mímica. Os professores estavam mesmo decididos a nos dar um chá de repetição e monotonía ontem. Depois de duas horas de leitura de Medéia e mais uma hora em uma mesma prática corporal, mais duas aulas de... observação da própria imagem e da imagem dos outros. A professora de mímica colocou uma música e colocou todo mundo de frente pro espelho. De novo, sim senhora. Cada um devia olhar para a sua imagem no espelho durante loooongos minutos, tentando distanciar-se de si mesmo, pensar na sua imagem como se fosse a de um desconhecido que andasse pela rua. Já tentou? Difícil pacas. Só no fim da aula eu ia perceber que a verdade é que aquele era um exercício para não ser conseguido. É impossível olhar para mim sem ver todos os juízos que já fiz de mim mesma, sem contar as impressões que as outras pessoas já afirmaram ter a respeito da minha aparência. Fiquei com a impressão de que esse é dos exercícios de meditação mais exigentes que há. E eu não sei meditar. Primeiro, os detalhes chamam a atenção: sobrancelha que fiz torta, olheiras das noites passadas, manchas de sol, excesso de peso, costas curvadas, cabelo com frizz (deve ser o shampoo Pantene, uso demais). Depois, o ridículo, sempre ele: "Isso não faz sentido. O que estou fazendo aqui? Isso me ensina o que? Sou inteligente, sei que é impossível me distanciar blábláblá...". Impossível calar o pensamento de Elisa, ou melhor, impossível calar o pensamento e ponto final.
Segunda etapa: a exposição à chacota alheia. Ops, quer dizer, o momento de compartilhar impressões. Né?! Tem que ter. A ideia era ficar de frente para todos os outros e de costas para a parede de espelhos. De pé, contar aos outros o que viu sobre você, o que sua imagem diz. Os outros, sentados à sua frente, devem concordar ou não com as suas impressões, e eles também julgarão a sua aparência. Incômodo? Você ainda não viu nada. Vergonha alheia? O que é vergonha perto daquilo ali?
Fui a primeira, melhor é cortar o mal pela raiz, arrancar o bandeide de uma vez só, levar na cara sem ter tido tempo de se proteger. "Minha imagem me diz de alguém orgulhoso e preocupado". Como os outros ainda estavam tímidos, ouvi coisas como "simpática", "carinhosa", "traços delicados", "dedicada". A partir daí, foram todos misturando as impressões de imagem com demais impressões da personalidade de cada um. Aproveitou-se para "falar na cara" e para "puxar o saco". Alguns lá na frente aproveitaram para falar de como são (ou acham que são), justificando sua aparência, seus olhares, suas "primeiras impressões" acerca uns dos outros. Bastante desvirtuado, o exercício me mostrou muito nesse "não-funcionar" dele: não sabemos nada de imagem, não sabemos nada de auto-imagem. Nosso espelho pessoal é borrado, viramos as costas para nossos traços mais óbvios. Preferimos nos ver nos olhos dos outros, através de simpatias e antipatias. Empatia mesmo, aquela que nos faz entrar de verdade na existência do outro... difícil. Caminhamos sobre uma superfície muito frágil de estereótipos e observações pouco interessadas. Queremos mesmo conhecer os outros? Nos conhecer? Eu não sei não. Pensando no ator/atriz: ele não quer representar um outro no palco, ele quer SER um outro (como já falei numa das aulas passadas). Para ser um outro, teremos que ultrapassar essas barreiras do nosso olhar viciado e superficial. Teremos que ENXERGAR os outros, para saber como atuar. Teremos que ENXERGAR a nós mesmos, para saber até onde poderemos ir nessa mímese.
Dever de casa: observar e relatar a maneira como as pessoas reagem a nós, à nossa aparência, mas ruas. Observar gestos e falas, olhos e silêncios constrangedores. Qual a impressão que deixo, que passo? Também pra isso procuro contribuiçoes! Deixe seu recado sobre a minha imagem apos o sinal! =D
Um tiquinho de pratica da primeira posicao dos pes e das maos na mimica classica... ao menos pude estreiar minhas sapatilhas de ballet pretas (comprei na Ballet Branca de Neve, na rua da Bahia. Quem quiser...). Fim das aulas, tinha chovido a tarde quase toda, ne? Ou apenas meia hora, nao sei. Muito dificil prestar atencao no tempo la fora, quando estao me incitando a focar bem aqui dentro de E(u)lisa. Saida em carreira, fui ser filha de Deus e namorar um pouquinho no sabado a noite! Mas nao sem olhar os olhos se cruzando pelo meio do caminho.
*Sinal: BEEEEEEP.