Quase perdi a aula de hoje. Meu pai está se mudando, e tive que ir ajudar com os carregamentos hoje de manhã bem cedo, pra estar liberada às 11h. Meu pai está se mudando de um apartamento no quarto andar, o que me fez subir e descer escadas milhões de vezes... e eu nem podia imaginar que estava me preparando para as aulas de improvisação de hoje. Sério.
Nada de calça estranhaurel dessa vez... fui de legging e camiseta preta, o básico. Um short larguinho por cima da legging me impediu de ficar fazendo exposição devassa da minha figura pelas ruas, até chegar ao SESC.
Primeira aula: História do Teatro, com o professor Roberto. Formado no TU e em Artes Cênicas, um moço boa praça e entendido do teatro grego. Como aula inicial, falou sobre os trágicos Ésquilo, Sófocles e Eurípides; introduziu também os mais conhecidos comediosos: Aristófanes (sim, aquele que deu a ideia mestra da greve de sexo já nos tempos mais primórdios) e Menandro. Adoro História, e adoro que me contem histórias. Sendo assim, fiquei viajando nos temas, mas imagens das estruturas de auditório grego e, claro, na figura do Téspis. Téspis, o tão falado primeiro ator reconhecido no mundo ocidental. Gostei do conto sobre esse fanfarrão que resolveu, em lugar de louvar a Dioniso, colocou-se no lugar do deus através da interpretação... Quantos não quiseram ser deuses, ou simplesmente ser outra pessoa, antes dele? Depois vou escrever um post só sobre essa história, sabia? Já divaguei litros a respeito.
E a preparação física nas escadas que subi e desci, carregando chapéus panamá e quadros de Mariana do meu pai? Pois bem, me serviu para a aula de Improvisação, com uma nada cândida pessoa chamada Didi.
Nosso professor de Improvisação foi um grato encontro improvisado. O Didi está fazendo mestrado na Letras, e com a professora Sara Rojo, uma das melhores de que tive o prazer de ser aluna. Fantástico! E, pensando com meus botões, essa deve ser uma relação de sucesso... Didi é tão visceral no teatro como a Sara nas aulas de literatura e teatro hispanoamericano. Trabalha o corpo e a presença do ator, em primeiro lugar. Nada de recitador inanimado de textos decorados: o que o Didi parece querer de nós é uma vivência artística pra lá disso aí. Para se ter uma ideia, ele disse várias vezes que o ator/atriz começa a produzir a partir da exaustão física. "Hein?", perguntarão vocês (ou não). Sim, exaustão. Como diretor/preparador, o objetivo do Didi parece ser fazer-nos esquecer os cacoetes de postura e, pior ainda, as encenações caricatas ou mecanizadas que a gente acha que fazem sucesso em cena. "Menos é mais também na interpretação", disse o Didi. Pra quê me contorcer toda e babar pra interpretar um velho, se consigo algo mais genuíno e interessante com a expressividade do olhar, ou ao tensionar partes específicas do corpo? Fiquei fascinada, mas com medo também. Esse papo de exaustão física me lembrou algo que alguém na academia me disse uma vez (achoq ue no treino de jiu-jitsu) a respeito da exaustão. Essa pessoa me disse que quando o corpo dá sinais de que não aguenta mais, é como um alarme falso. Nosso carro diz que a gasolina já acabou, quando sempre restam ainda aqueles litros para emergência. Com o tanque quase a zero, o Didi (e alguns teóricos do teatro de que ele falou e não me lembro) acredita que nos tornamos menos capazes de coordenar nosso corpo daquela maneira como estamos acostumados a domesticá-lo. Além disso, passamos a ser mais movidos por emoções (choro, raiva do professor, desespero por causa da dor), o que influenciaria positivamente na atuação. Não sei... talvez não faça sentido pra muita gente, mas pra mim fez. Afinal... o que um espectador quer ver em um ator? Esse último não representa paixões humanas no palco? Essas coisas têm que ser viscerais, sob pena de se tornarem um Zorra Total de sábado à noite.
Estranhou a imagem de uma aula de Kung-fu neste post? Pois ela explica bem o que veio depois desse tempo ouvindo o que o Didi tinha a dizer sobre improvisação. O que veio foi exaustão muscular, respiratória, mental. Pulos, gritos, variações enlouquecedoras na respiração, e até versões disso aí que os moços estão fazendo na imagem, o ma bu. Já tentou ficar nessa posição até as pernas começarem a tremer sem parar, o suor escorrer, a dor nas coxas ser insuportável? E já tentou fazer isso na ponta dos pés? O ma bu tem suas justificativas no Kung-fu. Nada disso é praticado com o simples objetivo da dor... e acredito que também não seja o caso da prática com o Didi. No Kung-fu espera-se alcançar níveis de consciência mais sutis com essa prática. Após o período inicial de dor intensa (se a genet aguentar), é possível entrar num estágio de profunda observação do próprio corpo, do equilíbrio... e tudo isso, nem preciso dizer, é uma maneira de encontrar em si mesmo determinação, foco. Gosto disso, mas confesso que parece bem menos elevado e nobre quando você está lá ouvindo os gritos do Didi e suando como porco indo pro abate. Agora à noite, sentada no sofá da sala, sinto que tenho um joelho esquerdo um tiquinho mais ferrado do que tinha hoje de manhã!
Não... a tarde não tinha acabado. Depois de uns minutos para beber água e de uma crise de cãimbra bem chorosa de uma mocinha (meu palpite é que pelo menos metade da turma estava querendo chorar, àquela altura), começou a última aula: Mímica Clássica.
A professora Sula parece uma ex-bailarina, pelo porte e pela delicadeza. Essa aula foi um bálsamo depois do sofrimento e chororô da aula anterior! Sabe aquelas músicas de cinema-mudo? Aquelas animadinhas que lembram Charlie Chaplin? Pois é, começamos com um aquecimento das articulações, todos voltados para a parede de espelhos, nos movendo de um jeito que lembrava demais o cinema-mudo. A professora ia fazendo os movimentos, sempre sorrindo de leve, e a gente parecendo um bando de patinhos desajeitados atrás da mamãe-pata. Eu ri! Sempre soube que sou desastrada e mega desarticulada, e dessa vez não foi diferente. Tenho que ter paciência comigo, e isso talvez seja o mais difícil pra quem quer aprender bem e rápido!
Sula repetia, durante a aula: "'Mímica é concentração e repetição. Concentrem-se no movimento e nada mais", enquanto passava a primeira posição dos pés e, na sequência, a primeira posição das mãos. Se parece muito com uma aula de ballet para iniciantes... teremos que usar sapatilhas, e o primeiro movimento é uma espécie de corrida simulada, sem sair do lugar. Simula a corrida para frente e para trás, e esse último é praticamente o clássico moonwalk michaeljacksoniano! Rimos bastante, principalmente para escondermos nossa falta de coordenação e nervosismo. Parece tão fácil! Mas para correr pra frente com desenvoltura e expressividade é necessário coordenar os passos com pés em meia-ponta e uma sucessão de pliés e relevés típicos do ballet... e eu nunca fiz ballet né personas? Vou comprar as sapatilhas que a Sula pediu e treinar durante a semana.
Teve também a primeira posiçào das mãos, a chamada "onda". Um movimentozinho aparentemente ridículo que acaba fazendo doer da ponta do dedo anelar até o pulso depois de uns minutos de prática. Medo dessas torturazinhas teatrais, viu? Talvez eu preferisse as pontas dos dedos descamadas de tanto agarrar kimono no jiu-jitsu! rsrs
Pra fechar, a professora Sula sugeriu que os alunos escrevessem sobre as aulas, para montarem para si uma espécie de apostila de técnicas teatrais. Escrever sobre a prática do dia exercita a memória e facilita o manuseio dos conhecimentos na medida em que avancemos no curso. Olha só, a Elisa já faz isso aqui! Claro que a descrição aqui deixa várias coisas de fora, né?... O blog tá mais para um compacto comentado dos melhores momentos... e eu só consigo fazer assim.
Agora sim, pra fechar: estou aceitando doações de sapatilhas de ensaio de ballet! Gracias.


Nenhum comentário:
Postar um comentário