terça-feira, 15 de março de 2011

De "La vida es sueño" e liberdade



Foi uma das muitas vezes em que eu chorei no cinema. Assistindo ao filme Tempos de Paz, um filme nacional muito bom, que é quase todo ele um diálogo impressionante entre as personagens de Dan Stulbach e Tony Ramos. Não vou contar a história, tenho preguiça, mas o filme é todo bom. Ainda que não o fosse, valeria pela cena em que a personagem de Dan Stulbach recita o monólogo de Segismundo, cena que está nesse vídeo aí do youtube.
Na época em que vi o filme no cinema, não conhecia a peça de teatro que tem Segismundo como personagem central. Mesmo sem saber toda a história dele, e nem porque ele sentia tanta dor por não conhecer a liberdade e se revoltava contra os céus, chorei que nem menino pequeno. Porque é sempre assim, a última coisa de que a gente precisa pra cair no choro é um motivo racional ou plausível. Canceriana falando.
A peça se chama La vida es sueño, e é do Calderón de la Barca. Enfim eu li a peça no fim do ano passado, para uma matéria lá da Letras... nem me lembrava mais da cena, mas foi só começar a ler o monólogo (dessa vez em espanhol) e veio o estalo. Conhecendo o enredo, tudo fazia sentido! No cinema foi algo como "Sim, estou chorando porque é bonito, porque a interpretação é boa, mas sabemos que clamar pela liberdade não faz muito sentido, ninguém é livre pô!". Agora, no aconchego  da biblioteca da Fafich, Segismundo me contou de uma outra liberdade: a liberdade de conhecer a si mesmo, de se reconhecer como parte da Vida na Terra, com possibilidades de escolhas (mesmo aquelas mais presas pelas contingências). Ele não queria aquela liberdade tola, de poder fazer o que quisesse ou sei lá o quê. O Segismundo, aquele criado na torre por razões que sempre estiveram fora do seu entendimento, almejava a liberdade de buscar um destino com suas próprias mãos, buscar o auto-conhecimento. O caminho que ele trilha na obra é muito bonito: da quase bestialidade de um "homem-fera", criado à margem das relações sociais, do afeto, e de mil outras experiências que pra nós são tão triviais, passando pela crueldade e o desejo de vingança, até encontrar a si mesmo e à sua humanidade. Daí o Segismundo me contou isso tudo e foi embora, e eu fiquei lá toda bocó chorando de novo.
Bom, vale a pena ver o filme e ler a peça. E nem vou comentar a identificação que rolou com o tema das duas obras, dado o momento da vida elisística.

P.S.: Estou quase meio um tanto quanto ansiosa pra chegar sábado logo. É... isso era esperado.

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